O avanço de conhecimento e tecnologias na área de reprodução assistida tem permitido que cada vez mais pessoas com problemas de fertilidade tenham a possibilidade de engravidar. Cada tratamento de reprodução humana tem uma indicação específica — que variam de acordo com características próprias da pessoa ou casal que procura o especialista e a causa da infertilidade.
Os tratamentos incluem tanto técnicas menos complexas, como o namoro programado e a inseminação intrauterina, quanto mais complexas, como a fertilização in vitro (FIV). Há casos em que o tratamento de reprodução escolhido precisa ser combinado com a doação de gametas (espermatozoides ou óvulos) ou mesmo embriões.
Nesse contexto, no texto de hoje falaremos sobre a doação de óvulos (ovodoação) para a realização de procedimentos de reprodução assistida. Acompanhe!
1. O que é a doação de óvulos ou ovodoação?
A doação de óvulos é a ação de doar gametas femininos (óvulos) de uma paciente para outra. A paciente receptora é aquela que necessita do gameta para utilizar durante um ciclo de reprodução assistida, pois não produz óvulos em quantidade ou qualidade suficiente para formar embriões viáveis. A doação pode ser feita de forma completamente voluntária ou na forma de doação compartilhada.
A doação voluntária acontece quando a doadora é uma mulher que não tem problemas de fertilidade e se submete ao processo de estimulação ovariana e coleta dos óvulos, com o único intuito de doá-los.
A doação compartilhada, por sua vez, ocorre quando uma mulher que já está em tratamento de reprodução assistida divide os óvulos coletados entre ela e a receptora, ou seja, usa para si parte dos óvulos coletados e doa a outra parte para outra paciente. Nesse caso, os custos do tratamento são divididos entre ambas, porém de forma anônima e por intermédio da clínica.
As normas para este procedimento, bem como toda a regulamentação das práticas em reprodução humana, são estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) na Resolução nº 2.320 de 2022.
2. Quem pode ser doadora de óvulo?
A avaliação da possibilidade da paciente ser ou não doadora de óvulos é de responsabilidade do médico assistente, e sempre será feita de acordo com a vontade expressa da paciente. A doação deve ser feita de forma anônima em ambos os tipos, e nunca pode ter caráter lucrativo ou comercial.
Outros pré-requisitos estabelecidos pelo CFM que regulamentam a doação de óvulos são:
Idade
A idade máxima para doação dos óvulos é de até 37 anos: a partir dessa idade, as taxas de fertilidade começam a diminuir consideravelmente na mulher e aumentam as chances de mutações genéticas nos gametas.
Sigilo da identidade
O sigilo da identidade das doadoras e receptoras deverá ser sempre mantido (informações de caráter clínico da doadora poderão ser passadas para os médicos, caso necessário, resguardando-se a sua identidade civil).
Proibições
Os funcionários das clínicas de reprodução (médicos, enfermeiros, demais integrantes) não podem ser doadores.
Antes da doação dos óvulos, a doadora precisa também passar por uma avaliação clínica minuciosa e realizar uma série de exames laboratoriais para descartar doenças genéticas e pesquisar infecções (como HIV, HTLV, sífilis, hepatite B e C).
3. Como é o procedimento?
Podemos dividir o procedimento da doação de óvulos entre as etapas que acontecem com a doadora e as que ocorrem com a receptora.
Primeiramente, a doadora voluntária ou que está se submetendo ao tratamento de reprodução assistida inicia o processo com a estimulação ovariana controlada (EOC), que tem o objetivo de estimular o ovário a produzir o máximo de óvulos possíveis, que são posteriormente coletados por aspiração folicular.
Caso a paciente tenha realizado a doação unicamente com caráter voluntário, o processo se encerra nesta etapa. A menstruação deve ocorrer em alguns dias após a coleta dos óvulos e não serão necessários exames ou procedimentos após.
Já nos casos em que a paciente doadora também está em tratamento, as próximas etapas do tratamento podem ser realizadas normalmente, conforme planejado previamente junto com seu médico. O fato de ter doado parte dos óvulos não interfere nas etapas.
Para a paciente receptora, os embriões serão formados através dos óvulos recebidos da doadora — que serão fertilizados pelos espermatozoides (do parceiro ou de doador, dependendo do caso). A receptora também faz uso de medicações hormonais, mas, nesse caso, para estimular o desenvolvimento do seu endométrio (parede interna do útero) para receber o(s) embrião(ões).
O procedimento de transferência embrionária é rápido e indolor, semelhante a um exame ginecológico, e o exame de sangue para a detecção da gravidez é feito duas semanas após a transferência embrionária.
4. Em quais casos em que a recepção de óvulos é indicada?
A ovorecepção é indicada nos casos em que a mulher não tem ovários ou quando seus ovários têm algum problema de funcionamento, o que faz com que os óvulos produzidos sejam insuficientes ou com baixa qualidade para possibilitar a fertilização e posterior gravidez.
Assim, cabe ao médico e à clínica garantir que a doadora tenha a maior semelhança fenotípica (características físicas) com a receptora, o que aumenta as chances de que o bebê tenha aparência semelhante à mãe (receptora).
As principais indicações para o uso da recepção de óvulos são:
- mulheres na menopausa, seja ela precoce ou não;
- mulheres que nasceram com alterações estruturais ou funcionais dos ovários;
- após tratamento de quimioterapia e/ou radioterapia, caso tenham evoluído com falência ovariana (esses tratamentos podem atingir as células germinativas e provocar a infertilidade);
- mulheres que retiraram os ovários em cirurgia;
- falhas repetidas na FIV;
- mulheres com idade avançada e baixa reserva ovariana.
5. Quais as chances de sucesso?
As chances de sucesso da gravidez com a recepção dos óvulos dependem, em grande parte, de características da doadora e do óvulo doado. A escolha de doadoras apenas com menos de 37 anos é uma forma de aumentar essas chances, pois seus óvulos têm menores chances de apresentarem alterações e mutações que inviabilizem a gestação. Vale lembrar, ainda, que a idade da receptora tem menos influência.
As taxas de sucesso são variáveis dependendo das outras características de cada caso. De maneira geral, a chance de sucesso com recepção de óvulos gira em torno de 50% a 60%, número que aumenta com o número de tentativas.
6. Existem complicações associadas?
A doação de óvulos envolve procedimentos médicos para sua realização, de modo que complicações relativas à estimulação ovariana controlada e coleta de óvulos possam ocorrer nas pacientes submetidas ao tratamento. Mesmo assim, o procedimento é considerado seguro e a paciente é acompanhada e avaliada a todo momento por uma equipe multidisciplinar especializada.
Essas complicações incluem:
- efeitos colaterais dos hormônios: dor de cabeça, dor no local da aplicação, desconforto abdominal, mudanças no estado de humor;
- síndrome de hiperestimulação ovariana: número de folículos ovarianos gerados muito maior do que o esperado;
- falta de óvulos, mesmo após a estimulação do ovário (muito raro), entre outros eventos menos frequentes.
A doação de óvulos é uma técnica de reprodução assistida em ascensão, que permite que mulheres com problemas ou ausência dos ovários possam ter a experiência da gestação. Pensando nisso o CEFERP criou um programa de doação compartilhada de óvulos, o Sonhar Juntos. Para conhecer mais sobre o programa acesse aqui.
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