COVID-19, infertilidade e gravidez: precisamos falar mais sobre isto!

COVID-19, infertilidade e gravidez: precisamos falar mais sobre isto!

COVID-19, infertilidade e gravidez: precisamos falar mais sobre isto!

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Isolamento e distanciamento social, adiamento da concretização de muitos sonhos, crise econômica, desemprego, perda da liberdade e autonomia, stress, aumento da incidência de transtornos de ansiedade, sintomas depressivos, insônia, pessimismo, irritabilidade, frustrações, medo de morrer, entre outros. A pandemia agravou os problemas de saúde mental, modificou os valores humanos e o que era normal, comum e não apresentava valor aparente, tornou-se relíquia em época de COVID-19.

Para os casais que enfrentam a dificuldade para engravidar, o prejuízo da pandemia pode ser ainda maior porque a fertilidade feminina não para com o tempo! Especialistas americanos consideram que o stress gerado pela infertilidade e a proibição de avançar com seu tratamento são considerados um dos efeitos mais estressantes durante este cenário mundial, até mesmo comparável ao próprio enfrentamento do Covid-19.

Paralelamente, não há perspectiva de resolução da pandemia no Brasil e no mundo, inclusive com alguns países enfrentando a “segunda onda” de infecção pelo Covid-19. Por isto, é importante esclarecer informações relacionadas a infertilidade e gravidez para a retomada do tratamento nesta nova fase da vida humana! Quer saber como? Continue lendo este post!

O coronavírus impacta na fertilidade?

As informações sobre o impacto do coronavírus na fertilidade são escassos porque a infecção em humanos ainda é recente (o primeiro caso foi diagnosticado na China em novembro/2019). Até o momento, o vírus não foi identificado no sistema reprodutor feminino, secreção vaginal, líquido peritoneal ou líquido amniótico.

O coronavírus (SARS-CoV-2) tem como uma das portas de entrada no nosso corpo a ligação com os receptores ACE2 (é como se o vírus fosse uma “chave” que se liga aos receptores do corpo – “fechadura”). A ciência já demonstrou a presença destes receptores nos óvulos, embriões de quinto dia (blastocisto) e nos testículos (células de Leydig). Apesar destas considerações, não existe a certeza de que a infecção pelo Covid-19 possa prejudicar a fertilidade humana.

O que diz a ANVISA, SBRH e SBRA em relação a reprodução assistida?

Em 08 de outubro de 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) atualizou as diretrizes para a realização de procedimentos de Reprodução Humana Assistida face a pandemia do coronavírus. Neste documento foi recomendado que as clínicas podem realizar o tratamento de reprodução assistida desde que mantenham os cuidados para reduzir o risco da infecção pelo coronavírus, inclusive com a solicitação de sorologia para Covid-19 nos casos suspeitos (tabela 1). Cada clínica deve estabelecer a sua rotina e é necessário observar as diretrizes regionais (estado e prefeitura) em relação à pandemia na sua região.

Neste documento, a ANVISA recomenda que doadoras de oócitos e espermatozoides sejam rastreados para sorologia (RT-PCR – swab nasal) para o Covid-19 até 05 dias antes da coleta de óvulos. Em caso de resultado positivo, a ANVISA contraindica a doação de gametas. Além disso, o processo de doação inclui os seguintes pré-requisitos:

  • Preenchimento do questionário de triagem clínica específico para rastreamento de sintomas relacionados ao Covid-19.Preenchimento de questionário específico de triagem da doadora;
  • Não iniciar o tratamento se houver sintomas relacionados ao Covid-19: se houver infecção, aguardar 28 dias depois da cura para iniciar o tratamento;
  • Pessoas sem sintomas com viagem internacional recente ou contato com pessoas infectadas pelo COVID-19 ou contato próximo com casos suspeitos em avaliação nos últimos 30 dias: devem iniciar o tratamento após 14 dias.
  • Caso a doadora desenvolva sintomas sugestivos de infecção pela COVID-19 ou tenha o diagnóstico confirmado por exame laboratorial positivo, a doação deve ser interrompida e reiniciada após 28 dias da cura.
  • As doadoras de oócitos devem ser orientadas a realizar isolamento social entre o início da estimulação ovariana até a captação oocitária.
  • As doadoras com resultados prévios de testagem sorológica com IgG positivo, IgM negativo e IgA negativo serão dispensadas do teste swab nasal. Como a possibilidade de reinfecção ainda é incerta, o RT-PCR poderá ser realizado nos casos de sintomas altamente suspeitos.

Tabela 1: Orientações para início do tratamento com base nos sintomas ou diagnóstico de Covid-19 segundo a ANVISA.

 Qual o impacto do coronavírus para a futura mamãe?

A partir de 10 de abril de 2020, o Ministério da Saúde classificou gestantes e puérperas (mulheres que estão na fase pós-parto ou pós aborto) como grupo de risco para a Covid-19. Isto porque a gestante apresenta alteração do sistema imunológico (sistema de defesa do organismo) e pode ocorrer maior risco para infecções durante a gravidez.

Na grande maioria das gestantes, a infecção pelo Covid-19 apresenta sintomas leves (febre e tosse), sem necessidade de internação. A doença pode ser mais grave se houver fatores de risco como maior idade da futura mamãe, índice de massa corporal aumentado, pressão alta (hipertensão arterial crônica) e diabetes pré-existente.

Durante a gravidez, a mulher com Covid-19 pode apresentar maior risco de pré-eclâmpsia (aumento da pressão arterial durante a gravidez) e pode ocorrer maior taxa de aborto. Entretanto, o risco de mortalidade materna é muito baixo (menor do que 1-2,5%). Assim, se você está pensando em engravidar, alguns pontos devem ser considerados:

  • Se você é saudável, tem peso normal e não apresenta doenças crônicas, o risco relacionado ao Covid-19 é baixo.
  • É fundamental o uso de máscaras e realizar medidas de isolamento social.
  • Quanto maior a sua idade, maior o seu risco em relação a infecção pelo Covid-19.
  • A pandemia não tem prazo para acabar.
  • A fertilidade feminina diminui com o avanço da idade, principalmente após os 35 anos de idade.
  • A amamentação está liberada durante a infecção desde que a mulher utilize máscara.

 E para o bebê? Qual o impacto do Covid-19?

O risco de transmissão vertical (da mãe para o bebê) é mínimo, principalmente se o parto for vaginal. Quando a infecção ocorre no final da gravidez existe maior risco de nascimento prematuro (antes de 37 semanas de gestação) e necessidade de internação na UTI. Em alguns casos, também pode ocorrer o baixo peso ao nascimento. Entretanto, o risco de morte é baixo (em torno de 2,2, %).

Mensagem final

Converse com seu médico e estabeleça um planejamento seguro e adequado para não tomar decisões precipitadas, mas também não retardar medidas em tempo oportuno. Se você tem infertilidade, é importante receber aconselhamento sobre o declínio da vida reprodutiva em função da idade e ter uma avaliação da reserva ovariana. Consulte um especialista e vá em busca de concretizar os seus objetivos: juntos, podemos vencer os desafios relacionados à pandemia!

Referências:

Diriba K, Awulachew E, Getu E. The effect of coronavirus infection (SARS-CoV-2, MERS-CoV, and SARS-CoV) during pregnancy and the possibility of vertical maternal-fetal transmission: a systematic review and meta-analysis. Eur J Med Res. 2020 Sep 4;25(1):39.

Parazzini F, Bortolus R, Mauri PA, Favilli A, Gerli S, Ferrazzi E. Delivery in pregnant women infected with SARS-CoV-2: A fast review. Int J Gynaecol Obstet. 2020;150(1):41-46.

Smith V, Seo D, Warty R, Payne O, Salih M, Chin KL, Ofori-Asenso R, Krishnan S, da Silva Costa F, Vollenhoven B, Wallace E. Maternal and neonatal outcomes associated with COVID-19 infection: A systematic review. PLoS One. 2020 Jun 4;15(6):e0234187.

Torales J, O’Higgins M, Castaldelli-Maia JM, Ventriglio A. The outbreak of COVID-19 coronavirus and its impact on global mental health. Int J Soc Psychiatry. 2020;66(4):317-320.

Vaughan DA, Shah JS, Penzias AS, Domar AD, Toth TL. Infertility remains a top stressor despite the COVID-19 pandemic [published online ahead of print, 2020 Jun 5]. Reprod Biomed Online. 2020; S1472-6483(20)30314-X.

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Prof. Dr. Anderson Sanches de Melo

Médico especialista em Reprodução Humana pelo Hospital das Clínicas da HC FMRP-USP. CRM-SP 104.975
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