A endometriose reduz as taxas de sucesso da FIV?

A endometriose reduz as taxas de sucesso da FIV?

A endometriose reduz as taxas de sucesso da FIV?

Cólicas menstruais fortíssimas, desconforto durante a relação sexual, dificuldades para engravidar… Esses sintomas fazem parte da endometriose. No Brasil, segundo informações de 2015 da Associação Brasileira de Endometriose e Ginecologia (SBE), a doença afeta quase 6 milhões de mulheres.

Entretanto, para algumas, os sintomas não parecem tão incômodos e elas recebem o diagnóstico apenas quando vão ao médico por conta das dificuldades para engravidar. Em determinados casos, a única alternativa encontrada é a utilização de métodos de reprodução assistida.

Mas será que é possível obter sucesso, considerando a presença da endometriose? Continue a leitura e descubra essa e muitas outras informações sobre a doença.

Afinal, o que é endometriose?

Endometriose é uma doença ginecológica caracterizada pela presença do endométrio (camada interna que reveste o útero) fora da cavidade uterina. Esse tecido estimula a produção de fatores inflamatórios e se torna mais espesso, podendo causar aderências em outros órgãos abdominais — daí as dores que costumam se manifestar especialmente no período menstrual.

Apesar de 90% das mulheres apresentarem fluxo menstrual retrógrado (do útero para as trompas e cavidade pélvica), apenas 10% dessas mulheres apresentam predisposição para a adesão das células endometriais fora do útero. A causa exata do fenômeno não é conhecida, mas fatores genéticos, imunológicos e os relacionados ao sistema linfático já foram associados à endometriose.

Quais são os sintomas mais frequentes?

Dentre os principais sintomas que sugerem a presença da endometriose, podemos citar:

  • dor pélvica crônica (não relacionada ao fluxo menstrual);
  • cólica menstrual de forte intensidade;
  • dor durante a relação sexual;
  • alterações urinárias (dor ou sangramento ao urinar, especialmente no período menstrual);
  • alterações intestinais (dor, sangramento, obstrução do intestino);
  • infertilidade;
  • prejuízo à qualidade de vida;
  • baixa autoestima.

Apesar da possível presença de sintomas clássicos, é importante lembrar que até 20% dos casos podem ser assintomáticos, característica que pode provocar o atraso no diagnóstico e a piora progressiva do quadro clínico.

Como diagnosticar a endometriose?

O diagnóstico é baseado na história clínica, no exame físico e nos exames complementares (Ca-125, ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética, por exemplo). Entretanto, o diagnóstico definitivo da endometriose é realizado por meio da videolaparoscopia. Esse procedimento cirúrgico geralmente oferece baixo risco e permite identificar a localização e o tamanho das lesões suspeitas para realização da biópsia.

Além do diagnóstico, a videolaparoscopia permite avaliar o estadiamento (diagnóstico da extensão/grau da doença) e realizar o tratamento das lesões em uma mesma cirurgia. Trata-se de uma opção que permite diagnóstico e tratamento em um único procedimento, a depender da suspeita do grau de acometimento da endometriose (superficial ou profunda). Se indicado para você, é importante conversar com o médico e tirar todas as suas dúvidas.

Quais são as formas de manifestação de endometriose?

É importante lembrar que a endometriose apresenta diferentes graus e características: ela não se manifesta da mesma forma em todas as pacientes. Para entender melhor, explicamos abaixo algumas formas de manifestação da doença.

Endometriose superficial

Todos nós temos uma membrana responsável por envolver e proteger os órgãos abdominais, denominada peritônio. A endometriose superficial é o tipo mais comum da doença e, normalmente, afeta apenas essa membrana. Isso faz com que elas sejam facilmente eliminadas via cauterização, sem a necessidade de intervenções mais invasivas.

Endometriose ovariana

A endometriose ovariana resulta de um acúmulo de tecido endometrial no ovário, formando nódulos (os endometriomas). São esses cistos que podem comprometer a reserva ovariana (número de óvulos disponíveis) e a resposta ovariana aos hormônios e, assim, causar a infertilidade.

Pode haver necessidade de cirurgia para retirada dos cistos, mas a decisão deve ser tomada individualmente, pois a cirurgia pode interferir ainda mais na reserva do ovário.

Endometriose profunda

Nesse caso, os focos de endometriose podem afetar os órgãos abdominais em maior extensão, chegando, até mesmo, à bexiga ou ao intestino da paciente, por exemplo. Trata-se de uma das formas mais graves da doença, cujos sintomas costumam ser bem intensos.

Adenomiose

A estrutura uterina é formada por três camadas: o endométrio, local em que se implanta o embrião; o miométrio, formado de músculos e responsável pelas contrações no trabalho de parto; e a serosa, que tem a função de recobrir o útero e separá-lo dos outros órgãos vizinhos.

Em algumas mulheres, o endométrio encontra-se “misturado” ao miométrio. Tal condição é denominada adenomiose e, embora não seja qualificada como um tipo de endometriose, as doenças podem ser coexistentes. O organismo, por sua vez, identifica a condição como uma lesão e produz fatores para cicatrizá-la.

Essas reações podem também trazer sintomas de dor abdominal, dor nas relações sexuais ou cólicas menstruais.

Por que a endometriose causa infertilidade?

O principal fator de infertilidade associado à endometriose é o tubário. Isso ocorre porque o processo inflamatório crônico da doença provoca a alteração da anatomia (forma) e da mobilidade das trompas. A principal consequência disso é a dificuldade para a fecundação (união do óvulo com o espermatozoide).

Já foram identificadas alterações na qualidade dos óvulos e redução da chance de nidação (implantação) do embrião no útero, mas estas características não parecem interferir nos resultados da reprodução assistida.

Qual é o tratamento da endometriose?

O tratamento da endometriose depende dos sintomas. O uso de medicamentos pode ser uma alternativa inicial para cuidar do quadro de dor pélvica. Nos casos refratários de difícil controle ou na presença de obstrução intestinal ou sintomas urinários, a cirurgia pode ser uma alternativa.

Nas situações de infertilidade, o tratamento depende do estadiamento da doença: nos estágios mais leves, a cirurgia e a inseminação intrauterina podem apresentar eficácia. Entretanto, nas formas mais graves da endometriose, a fertilização in vitro (FIV) é o procedimento mais indicado.

Para o adequado planejamento do tratamento, é fundamental individualizar a assistência ao casal que deseja engravidar. Fatores como idade, tempo de infertilidade, taxas de sucesso das diferentes opções terapêuticas, condições financeiras e emocionais devem ser avaliadas em conjunto com um especialista para a definição das melhores condutas a serem tomadas.

A endometriose piora os resultados da FIV?

Um recente estudo publicado na Inglaterra, o qual envolveu mais de 900 mulheres com endometriose, concluiu que a cirurgia não aumentou a taxa de sucesso da FIV na presença de endometriose ovariana, mas esteve associada ao menor número de óvulos obtidos na punção do ovário nos ciclos de FIV.

Em outro estudo, publicado pela Rede Latino-Americana de Infertilidade (RED LARA), também foi observado menor número de óvulos captados nos ciclos de FIV de 22.416 mulheres (3.583 mulheres com e 18.833 sem endometriose).

Apesar disso, os autores latino-americanos demonstraram que a endometriose não reduziu a taxa de fertilização, gestação clínica (visualização do saco gestacional na ultrassonografia), abortamento e, o mais importante, a taxa de nascido vivo em relação às mulheres sem a doença. Essas características também foram observadas em outra pesquisa, com 209.070 transferências de embriões (tabela 1).

Apesar dessas considerações, é importante lembrar que a taxa de cancelamento de ciclo por ausência de resposta ou resposta inadequada dos ovários à estimulação hormonal é maior na presença de endometriose, principalmente se as lesões estiverem localizadas nos ovários.

Como vimos, a endometriose pode trazer dificuldades, mas não deve ser o motivo para abandonar o sonho da maternidade. Converse com um especialista em Reprodução Humana e saiba mais sobre a endometriose e sua relação com a infertilidade. Juntos, é possível vencer a endometriose e alcançar o tão sonhado bebê!

Se você deseja entender melhor sobre as alternativas de tratamento, leia também este artigo sobre a diferença entre FIV e fertilização intrauterina.

Tabela 1: Taxa de nascido vivo de acordo com o número de tentativas e taxa cumulativa após quatro ciclos – Comparativo entre portadoras de endometriose versus outros fatores de infertilidade.
*As taxas de nascido vivo/ciclo e cumulativa (após 04 tentativas) não foram diferentes entre mulheres com endometriose quando comparados a casais com outros fatores relacionados a infertilidade (masculino, ovulatório ou sem causa aparente).

Fontes:

  • González-Comadran M, Schwarze JE, Zegers-Hochschild F, Souza MD, Carreras R, Checa MÁ. The impact of endometriosis on the outcome of Assisted Reproductive Technology. Reprod Biol Endocrinol. 2017;15(1):8.
  • Hamdan M, Dunselman G, Li TC, Cheong Y. The impact of endometrioma on IVF/ICSI outcomes: a systematic review and meta-analysis. Hum Reprod Update. 2015;21(6):809-25.
  • Johnson NP, Hummelshoj L, Adamson GD, Keckstein J, Taylor HS, Abrao MS, Bush D, Kiesel L, Tamimi R, Sharpe-Timms KL, Rombauts L, Giudice LC; for the World Endometriosis Society Sao Paulo Consortium..World Endometriosis Society consensus on the classification of endometriosis.Hum Reprod. 2017;32(2):315-324.
  • Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Endometriosis and infertility: a committee opinion. Fertil Steril. 2012;98(3):591-8.
  • Stern JE ,Brown MB, Wantman E, Kalra SK, Luke B. Live birth rates and birth outcomes by diagnosis using linked cycles from the SART CORS database. J Assist Reprod Genet. 2013;30(11):1445-50.
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Prof. Dr. Anderson Sanches de Melo

Médico especialista em Reprodução Humana pelo Hospital das Clínicas da HC FMRP-USP.
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