Neste episódio do Papo de Tentante, a psicóloga Dra. Sumaya Sohen e Dra. Camilla Vidal falam sobre os desafios emocionais e psicológicos do tratamento com óvulos doados.
Venha entender mais sobre essa opção de tratamento que auxilia na construção de tantos sonhos, e conversar sobre como enxergá-la de forma saudável. Confira!
#podcast #tentante #gravidez #fertilidade #doacaodeovulos
Transcrição do episódio
Clique para ler a transcrição completa
Olá, aqui é a doutora Camilla Vidal, médica especialista em reprodução humana do CEFERP, Centro de Fertilidade de Ribeirão Preto. Seja bem-vindo ao podcast Papo de Tentante, um espaço onde compartilhamos informações sobre o universo das tentantes em busca do tão sonhado positivo. Aqui você poderá compartilhar suas experiências, se inteirar sobre os assuntos de reprodução assistida e ainda conferir relatos de mamães que já passaram pelo tratamento e tiveram seu positivo. Você também poderá conferir novos episódios quinzenalmente e assistir ao episódio em vídeo pelo YouTube do CEFERP. Vamos ao episódio de hoje?
Oi pessoal, sejam bem-vindos ao Papo de Tentante. Hoje a gente vai continuar numa temática que está sendo muito especial. A gravação está sendo no mês de setembro e em setembro a gente está falando bastante sobre o assunto relacionado à doação e recepção de óvulos. E para esse assunto tem uma convidada muito especial que vocês já vão reconhecer. Seja muito bem-vinda, sua Muito obrigada, é um prazer estar aqui com você novamente.
Acho que a maioria das pessoas já me conhecem, né? Mas eu sou Sumaya, psicóloga clínica já há muitos anos. Sou responsável técnica pelo Multiser, que é o primeiro centro de gestão da emoção dentro de um shopping, também no Shopping Ribeirão, assim como a CEFERP. E sou parceira da CEFERP nessa jornada tão intensa, incrível, maravilhosa, cheia de desafios que é a fertilização. Com certeza, e hoje a gente vai conversar um pouquinho justamente sobre essa questão dos óvulos doados, né, acaba sendo de certa forma ainda um tabu, né, e muitas vezes quando a gente fala disso com a paciente num primeiro momento, vem uma emoção, na verdade um misto de emoções, né.
Então, a gente vai falar um pouquinho sobre como lidar com essa sensação, com a percepção do tratamento com óvulos doados, né? E vou só começar contextualizando um pouquinho da parte clínica, né? Porque basicamente, pra gente fazer o tratamento com óvulos doados, a gente pode… Tanto receber óvulos de alguém da família, quanto doadoras anônimas. E existem bancos de óvulos internacionais também.
Normalmente, quem são as pacientes que se beneficiam de fazer o tratamento com óvulos doados? São aquelas pacientes que têm baixa reserva ovariana, dependendo do fator da idade, ou histórico de menopausa, histórico de falha repetida de implantação. Então, esses são alguns dos critérios que a gente indica o tratamento com óvulos doados. Mas um primeiro ponto que, falando nessa questão de indicação, que eu queria trazer para a gente conversar também, é que assim… Lógico, existem alguns casos onde a ovodoação é a principal opção.
Então, por exemplo, uma paciente menopausada, onde o ovário já não está, não consegue mais responder as medicações, a gente recorreria a um gameta doado. Mas na maioria dos cenários, ela acaba não se apresentando como a única opção. Então, por exemplo, uma paciente com baixa reserva ovariana, é possível estimular o ovário? Muitas vezes sim, mas as taxas de sucesso podem ser um pouco mais baixas. E aí, quando a gente se depara com essa questão de que dá pra ir por um caminho, dá pra ir por outro, tem o lado bom, mas gera uma sensação de dúvida um pouco maior pra paciente também, né?
Sim, perfeito. Você trouxe dois aspectos muito importantes. Por exemplo, vamos começar em relação a paciente, por exemplo, que menopausou. Pra ela, a opção da ovoduação chega como… um alívio, uma possibilidade maravilhosa de maternar, né?
Então, nesses casos mais específicos, é claro que ela tem a história dela e talvez até ter chegado nisso ou ter resolvido a maternidade já na menopausa, tem a história pessoal de cada um e isso em psicologia e dentro do aspecto emocional, eu gosto sempre de falar que cada história é muito única, né? Então, assim, cada caminho é o seu caminho. Mas é uma paciente que tem mais esse perfil e aí ela chega para a ovoduação, mas, ai, tá bom, ainda tenho essa oportunidade que é maravilhosa. Agora, há outra paciente que, dentro da história dela, já veio tentando de outras maneiras, começou lá atrás, às vezes sem saber que havia uma condição física que a impediria, então tenta natural, faz, vai lá, conversa com o marido, faz de um jeito, faz de outro, depois vai procurar um ginecologista, aí ele começa a fazer uma série de exames, aí ela já começa a ficar mais ansiosa, aí ele aponta uma outra coisa, aí é um questionamento, então assim, Aí ela parte para um tratamento, a princípio com os próprios óvulos, então ela vai ali construindo uma história com muitas perdas, né? O que a gente fala em psicologia, que são lutos que essa paciente vai enfrentando, né?
Poxa, eu imaginava desse jeito, não é desse jeito, aí eu elaboro, eu parto para um outro tipo de tratamento, eu começo, não dá certo, e aí chega finalmente na possibilidade da ovoduação. que é de novo um luto, e aí é um luto muito profundo e específico em relação à parentalidade. Então, eu vivenciar esse luto de que talvez meu filho não tenha minha carga genética. Aí é algo muito impactante num primeiro momento, a paciente entra às vezes em negação e se revolta e pergunta por que eu, e todos esses sentimentos são plausíveis e eles devem ser sentidos e elaborados, eu sempre falo para as minhas pacientes. Não tem sentimento ruim, né?
Tem sentimento. Então, vamos elaborar cada um deles, deixar que esse processo venha e aí vamos dar conta disso. Então, é… Desculpa. Não, eu ia falar, e deixar sentir, né?
Porque assim, eu percebo isso às vezes na consulta, A paciente, ela começa a se exaltar, ela, desculpa, desculpa. E aí parece que não pode sentir aquilo, mas na verdade faz parte do processo, né? Muito, muito parte do processo de luto, que é aquela história, né? Que a gente em psicologia até põe as fases, que é da negação, da revolta, da barganha, da depressão e finalmente da aceitação. É um processo com começo, meio e fim.
Então, ela vivencia tudo isso diante da impossibilidade de então gerar um filho com os seus óculos. O que isso significa num primeiro momento? Claro que a gente tem uma construção cultural da nossa sociedade, você começou falando que ainda é algo assim, que tem um certo preconceito, que há um pouco de medo, que a gente acha que, ai meu Deus, e aí? As pacientes usam uma palavra que eu acho muito interessante, que elas falam, mas e aí a índole? E como que vai ser?
E que medo? E o que será que vai trazer? Então, são questões, claro, que nos impactam, mas elas são construções que nos limitam também, porque é muito cultural, né, Camila? Então, é hora de, tá bom, vamos lá, mais um luto. É difícil o processo.
No caso da ovoduação, realmente é uma dor profunda por conta da parentalidade, até que a paciente entenda que Está tudo bem, né? A maternidade vai muito além do DNA, a gente sabe disso, né? Então, aos pouquinhos, a gente vai trabalhando isso. É interessante isso. O vínculo da maternidade, ele passa muito mais do que pela genética, né?
A gente gravou um episódio sobre a questão de casais homoafetivos femininos e a gente estava falando que muitas vezes alguém para e fala, mas de quem que é o óvulo? E dá vontade de responder, mas isso faz diferença? As duas são mães do mesmo jeito, né? Sim, sem dúvida, sem dúvida. Talvez no início a paciente ela foque muito nisso, ela tenha muito medo disso.
Mas se a gente pudesse, né, infelizmente a gente não pode falar pra ela, ó, lá na frente você vai ver, isso vai passar, vai ficar tão pequenininho, mas não dá, né? Então a gente vai… junto com ela, elaborando essa questão. Porque hoje a gente sabe que durante a própria gestação, há conexões que são feitas que são tão profundas, né? E que a mãe vai percebendo.
E é interessantíssimo, porque muitas vezes esse filho já nasce com características dessa mãe, com coisas que ela vivenciou durante a gestação que… ela percebe nesse filho. Então, essa conexão, isso a própria ciência já diz, né? É tão maravilhosa e é tão profunda que, de fato, em psicologia, no aspecto emocional, a gente sempre fala muito do multifator. Então…
Nada é uma coisa só. Então, a Sumaya, eu não ter um filho com o meu DNA, pode? A genética pode influenciar? Pode. Mas o meio ambiente pode, o social pode, as próprias experiências de vida de cada um podem influenciar.
Então, essa multifatoriedade é maravilhosa, porque se trata disso, né? Então, assim, esse filho, ele vai ser… O ambiente, o social, o amor que eu vou dar, né? Então, nesse momento, primeiro precisa estar muito claro isso pra essa mãe, né? Ela precisa aceitar isso pra que depois ela toque com naturalidade, né?
Você comentou da questão da índole, né? A gente fez o evento agora que foi o Doadoras e Receptoras Day e a gente recebeu a Karina do Nós Tentantes e ela é mãe por recepção. Do Pedro, né? Pedro, o filho dela? O filho dela é Henrico.
Ela tem uma história… Pedro, acho que é o marido. Isso, acho que é o marido. Ela tem uma história maravilhosa, maravilhosa, e ela divide isso. E ela fala de um jeito muito bonito.
E aí ela tava falando no evento sobre o jeitinho. Ela falou, mas antes eu tinha um pouco de medo, será que ele vai ter o meu jeitinho? Eu sou toda assim pra falar e tudo mais. E aí ela mesma contando, ela falou, nossa, meu filho é igualzinho a mim, no trejeito, no jeito de falar, no jeito de olhar e tudo mais. Porque tem isso, né, que você falou, tem a questão do ambiente intraútero e tem todos os outros fatores, né?
Que não são poucos, né? Exato, não vai ser só a genética, né? Então, o ambiente onde aquela criança cresce, ela vai aprender a interagir com o ambiente, a se relacionar de acordo com o ambiente que ela tá, né? Exatamente. A gente vê famílias, né, com irmãos…
com sanguíneos, e a gente vê tantas diferenças, né, dentro de uma família tradicional, entre aspas, né, que gerou ali, normal, natural, a gente vê tantas diferenças, fala, meu Deus do céu, como é que pode? Pode, pode, porque tudo influencia, né, que é maravilhoso. Agora, a Karine, né, a Karina, ela traz uma coisa que eu acho importantíssima, essa rede de conversar sobre esses grupos de, sabe, de tentantes, Grupos de apoio, em relação à fertilização, eu acho que é uma das coisas que mais funciona. Grupo de apoio é sempre muito bem-vindo, mas especificamente no caso das tentantes, eu acho maravilhoso, porque eu acho isso, quando ela traz a experiência dela e eu estou naquele momento de tanta aflição, aquilo abre um leque para mim. Fala, nossa, talvez, olha só como ela está feliz, olha só o Henrico, olha só a família que ela tem, olha quantas vezes ela tentou, porque eu também sei da história dela, olha quantas frustrações, olha que algumas vezes ela parou, ela repensou, ela deu um tempo, ela foi ali passear, ela foi ali respirar um ar.
Porque parar também não é desistir, é só parar, ir lá, respirar, mudar um pouco a rota. Então, esses grupos são maravilhosos, porque eles nos trazem acolhimento, carinho e uma coisa que é fundamental, que é a informação. E eu imagino que também o pertencimento, né? Porque assim, por exemplo, a gente estava falando dessa questão dos homoafetivos, Eu gravei um episódio onde eu recebi duas mães e elas têm um casal de gêmeos. E elas estavam contando que elas têm grupos de mães para que as crianças possam conviver, para que as crianças conheçam aquela realidade e vejam aquela realidade como normal.
Sim. Então, eu vejo que para trazer para esse assunto, como a Karina traz e com a leveza que ela traz, também é importante para que as mulheres se reconheçam nisso, né? Porque a gente tem tão fixo ali aquela ideia da maternidade vinculada à genética que acaba sendo… Exatamente. Quando a gente ouve outras pessoas contando a história e passando por isso, a gente se sente pertencente, a gente vê que existe, né?
Porque uma das principais questões que a mulher traz quando ela se depara com a possibilidade do ovo doação é a questão da identidade. A sua auto-identidade. Isso entra numa rota que ela começa a ficar um pouco confusa, assim. Ela perde um pouco a identidade dela. Mas que mãe eu vou ser?
Como que eu vou gerar um filho de novo? A questão do DNA. Então, ela se perde um pouco nisso. E esse pertencimento é maravilhoso por conta disso. Assim, não, olha, calma, né?
A gente vai achando a nossa identidade dentro dessa relação que a gente vai começar a estabelecer. E mais do que isso, hoje… Graças a Deus, as constituições familiares são muito diferentes, né? Lá na minha época, que já sou velha, ou na época da minha mãe, da minha avó… Poxa!
Com orgulho, sim, mas era uma constituição, mas assim, né? Então hoje a gente fala de dois pais, duas mães, os meus, os seus e os nossos, eu sou separada, e o meu melhor amigo é meu ex-marido, e a mulher dele é minha amiga, e a minha filha com a filha dela… É isso, são novas constituições e todas muito bem-vindas pra que a gente reconfigure e traga naturalidade. Porque se a gente aceitar a nossa condição com naturalidade, vamos passar isso pro nosso filho, né? Exato.
E assim, às vezes, quando a gente comenta em consulta, principalmente quando é o primeiro momento que a paciente ouve falar ali sobre óvulo doado, a resposta muitas vezes é assim, ah, mas se for pra não ser meu, eu prefiro adotar. E na verdade não é que não é seu, ele é seu filho do mesmo jeito, né? Aquele óvulo doado, ele é uma célula, né? Mas é uma célula que não forma um bebê sem o seu útero receber, sem a sua nutrição, né? Sem as suas emoções, sem o seu, né?
O seu acolhimento pra aquela criança. Então, mostrando, né, essa questão do vínculo com a genética e do vínculo com a maternidade como um todo, e a gente tava até comentando antes de começar a gravar, de como esse vínculo vai sendo cada vez mais fortalecido ao longo da gestação, né? Assim, eu brinco com as pacientes, a gente costuma falar isso muito lá na clínica, quando você sente o chutinho na barriga, a última coisa que você vai pensar é, ah, de onde foi que veio esse óvulo, né? Sim, vai ficando cada vez menos importante isso, porque outras coisas vão se fortalecendo. E você, como médica, trazer, inclusive, essa explicação, olha…
Esse óvulo precisa do seu corpo para se desenvolver e tudo que acontece durante a gestação é sua responsabilidade, o seu organismo, é a sua conexão física e emocional e mental e espiritual com essa criança, então isso faz muita diferença. E isso vale até para questões, porque a gente fala um pouquinho sobre questões epigenéticas, né? Então, assim, as pacientes se pegam muito, se apegam muito a essa questão do DNA, mas tem questões além da genética, né? Muitas vezes as pacientes que vão fazer com óvulos doados se preocupam assim, ah, mas e o histórico, por exemplo, do peso da doadora, o histórico de educação, formação e tudo mais, mas o quanto do ambiente que eu como gestante vou estar providenciando para aquela criança, né, em desenvolvimento, quanto isso também não conta, né, muitas vezes muito mais, né? Isso conta mais, exatamente.
Eu como profissional da área e observando isso há mais de trinta anos, é impressionante como o meio ambiente, né, como… As nossas experiências, isso conta muito, muito mesmo. Então, por isso que eu falo, né? A hora que esse filho chega e que esse ambiente é um ambiente de tanto desejo, né? De tanta vontade, porque são mulheres corajosas, batalhadoras, que enfrentaram intempéries para chegar onde chegaram, que foram guerreiras.
Às vezes, eu converso muito com os pacientes da CEFERP, Uma vez, duas vezes, vamos lá, sacode a poeira, vamos embora. Então, quando essa criança chega, o ambiente que ela chega é tão maravilhoso, é tão esperado, que essa construção se dá da maneira mais bonita e conectada possível. Com certeza. E um outro ponto que, assim, eu queria saber seu posicionamento também, eu queria que a gente conversasse um pouquinho sobre isso. Algumas vezes eu percebo que o casal tem visões um pouco discordantes sobre o tratamento, né?
Então, às vezes, por exemplo, a paciente chega muito mais aberta… E o marido fala, ah não, mas eu queria que fosse o óvulo dela, eu queria que nascesse igual a ela e tudo mais, ou vice-versa, né, então eu já atendi casais, por exemplo, que falaram, ah, mas se a gente for fazer com óvulo doado, então eu quero o sêmen doado também, porque já não vai ter o meu óvulo, então não vai ter o espermatozoide dele. Então, o quanto essa visão divergente, discordante dos dois pode impactar também? O que a gente pode orientar nesse sentido? Claro, e impacta mesmo, né?
São duas pessoas, você e seu parceiro ou sua parceira, e esse acordo tem que ser mútuo. Isso é uma das coisas que lá na frente interfere, se não é algo muito acordado e muito discutido. É claro que quando a gente fala nisso, é importante esgotar todas as conversas, e aí não só no aspecto emocional, mas no aspecto informativo, porque muitas vezes chegamos nessa conversa com construções limitantes, com crenças nucleares, que é o que a gente chama em psicologia de que não vai ser legal, não vai ter minha personalidade, eu não sei de onde veio, eu não sei qual era a família, eu não sei o que a mãe passou. Então isso é algo que precisa ser exaustivamente discutido. Nesse momento o processo psicoterápico é maravilhoso, eu sei que a CEFERPoferece inclusive isso, porque é uma discussão que ela tem que ser discutida até que ela se esgote.
enquanto ela não se esgotar, enquanto a gente não zerar todos os fantasmas, todos os medos. E aí, nessas horas, o parceiro ou a parceira, quem não vai passar pelo processo, precisa ser chamado, ser colocado na roda. Às vezes, os homens, em geral, são um pouco mais resistentes, então eles também têm muita dificuldade de demonstrar o que sentem e de fazerem perguntas. de demonstrar fragilidade, medo, então a gente trazer esse homem pra roda é muito importante, então assim, seu parceiro ou sua parceira tem que estar junto, e isso tem que ser uma discussão exaustiva, até a gente chegar num denominador comum, então a gente espera de novo, esperar não é desistir, respira, reconfigura, discute de novo, vai num outro profissional, contrata um psicólogo, até que a coisa esteja melhorando. tranquila.
É, até porque cada um tem seu tempo, né, pra digerir todas essas emoções, né? Sim, claro, uma relação é feita de dois e cada um tem a sua história, né? Às vezes as pacientes me falam assim, ah, mas meu marido é assim ou assado. Falei, mas ó, vamos olhar pra história dele com carinho, como que foi a criação dele, como chegou a afetividade pra ele, como eram os pais dele, como que foi a construção familiar. Quando você entende a história do outro, você também fica um pouco mais empático, né?
Com certeza, com certeza. E eu imagino que seguindo por esse mesmo raciocínio, às vezes de dar um tempo pra tudo isso, porque a minha próxima pergunta era como é que a paciente faz pra saber que ela tá pronta pra esse momento? Porque a gente tava comentando, né? Pacientes, por exemplo, na menopausa, essa é A saída, né, é a opção que ela tem, é uma opção maravilhosa que ela tem. Mas pacientes que às vezes já passaram por mais tentativas, muitas vezes a gente recebe no consultório e aí vem a pergunta de, ah, mas o que você faria no meu lugar?
E eu sempre falo, olha, essa é uma decisão muito particular. Eu falo, eu posso te dar a minha posição clínica com relação a chances num caminho A, num caminho B, num caminho C. Mas a decisão de qual é o momento de mudar de estratégia, ela acaba sendo particular. Tem alguma forma, sim, ou algumas formas que a pessoa possa perceber, olha, estou pronta para considerar mudar de rota? Sim, claro que sim.
Primeira coisa que a gente fala, a gente já falou um pouquinho isso aqui, é assim, esgotar todas as suas dúvidas. Esgotar os seus fantasmas, os seus medos, passar pelo processo, como eu falei no começo, que é um processo de luto pela questão de não gerar um filho com o meu código genético. Então, esvaziar isso. E aí, sem medo. Para cada pessoa, o processo pode levar mais tempo ou menos tempo.
Então, não só do aspecto emocional, mas do aspecto informativo. Às vezes, as pacientes falam, você acha chato perguntar isso para a doutora Camilla? Eu falo, não, acho não. Vai lá e pergunta, que ela responde. Então, assim, esgotar esse aspecto informativo também.
E aí, depois disso, a maternidade chega. É muito lindo de ver, é muito interessante quando as pacientes, não é de repente, porque é um trabalho exaustivo, mas assim, em algum momento elas têm esse insight, a coisa começa a ficar clara e aí elas se entregam verdadeiramente ao processo. Isso em qualquer tipo, desde lá do começo da primeira FIV, quando foi lá com os óvulos e tal, depois não deu certo, depois eu tentei de outro jeito, depois eu fiz um exame complementar, depois aquele exame deu alguma coisa que eu tive que elaborar, até… finalmente, a possibilidade da ovo doação. Então, é esgotar, ter esse caminho claro, entender que é um processo, que eu vou ter medo, que eu vou ter dúvida, que eu vou ter raiva, que eu vou ficar feliz, que eu vou ficar triste, que eu vou querer desistir, que eu vou apostar tudo.
Somos humanos, então, é encarar esse processo um dia por vez. A gente só tem um dia por vez, né? Eu sempre falo isso também. Calma, não fica lá trazendo pensamentos antecipatórios, porque elas trazem muito isso, né? E se é cruel, né?
Vamos viver o dia de hoje. O que você pode fazer hoje? O que você tem controle? Eu falo sempre isso também quando eu falo sobre emoção. Há coisas que podemos controlar, outras não.
E o que a gente não pode controlar, a gente não pode controlar. A nossa sociedade… Ela foi, principalmente essas gerações, muito acostumada com boas notícias, né? Eu só quero boas notícias porque eu vou no Instagram, estou todo mundo feliz, eu preciso de resultado, eu não lido bem com notícias ruins. O que é errado, porque assim, a própria terapia te traz isso.
Eu não vou poder impedir que algo que não seja bom aconteça com você. Mas eu posso te ferramentar para que você reaja de uma maneira um pouco mais tranquila, né? E quando a gente fala em doação por parente, porque é algo que é relativamente novo agora, né, permitido pelo Conselho Federal de Medicina, e normalmente, assim, a gente já recomenda o acompanhamento psicológico para todas as pacientes, por todos os desafios que a jornada da fertilidade traz, né, mas especificamente falando em usar óvulos de familiares, a gente considera ainda mais importante essa avaliação, até pela percepção de todos os envolvidos, para que todo mundo esteja entendendo, ciente do tratamento que está sendo feito. Sem dúvida, e a mesma coisa quando a gente falou agora há pouco sobre o casal entrar nessa discussão e entender esse acordo, quando a gente tem algum familiar como doador, isso é muito importante também. Porque num primeiro momento, é claro, essa figura desse doador dentro da família é imprescindível.
Mas aí trabalhar com esse parente, até onde ele pode ir, qual é o limite, trabalhar isso com ele, ver exatamente se ele está disposto a doar e como doar, porque isso não pode ser confundido. A doação é um ato maravilhoso de amor, Mas quando não sou anônimo, pode gerar um pouco essa confusão estrutural e a família ficar disfuncional. Isso a gente já observa, então a gente também precisa intervir imediatamente, até se possível, porque às vezes não é possível ter essa linha tão bonitinha. Às vezes a coisa acontece e na hora que nasce a doadora está ali confusa com o seu próprio papel. E aí a gente tem que intervir.
Mas o ideal é que esse trabalho seja feito antes também. E sei que eu vou te fazer umas perguntas que não tem resposta certa, assim, não tem receita de bolo, mas só pra gente conversar um pouquinho, porque é uma preocupação grande que a gente percebe de quem pensa em fazer o tratamento com óvulos doados, é com relação a, será que eu preciso contar? Quem precisa ficar sabendo? A gente vai abrir pra pessoas da família, a gente não vai abrir, a gente tava falando, por exemplo, né, de questões como a Karina, que escolheu compartilhar e o quanto ela é fonte de inspiração, Mas muitas pacientes também escolhem não abrir isso pra mais ninguém, além ali do relacionamento, né? E como que elas podem trabalhar essa questão de contar ou não contar, pra quem contar, né?
É um aspecto delicado, acho que cada pessoa precisa encarar a sua própria história e tomar isso para si. Mas de uma maneira geral, se você me perguntasse o que a psicologia pensa, eu acho que a psicologia sempre é a favor da transparência, né? Eu preciso conhecer a minha história, é minha história e é uma história tão bonita de luta e de perseverança, mas é claro que a primeira pessoa que precisa entender e aceitar isso… É a receptora, é a mãe. E aí é o processo dela de lidar com isso e ir aceitando.
E eu volto a falar, pela minha própria observação clínica, isso vai ficando tão pequenininho e a naturalidade de como foi gerado esse filho, ela vem entrando com tanta força que lá na frente eu acabo normalmente, na maioria das vezes, contando para o meu filho com muita naturalidade. Claro que… dependendo da idade, como a gente fala para essa criança, tem que ser de uma maneira muito simples, muito básica, e aí depois, conforme também essa criança, esse adolescente for perguntando, a gente vai explicando do nosso jeito e como a gente pode. Mas é uma decisão muito pessoal e também a gente tem que respeitar se eventualmente a pessoa não quiser contar. Mas eu acho que normalmente, posso falar pela minha própria experiência, essa coisa vem, ela acontece muito naturalmente lá na frente.
até a Karina tava comentando que ela fala pro filho, olha a mamãe não tinha sementinha, mas aí veio uma pessoa muito, muito legal e deu uma sementinha pra mamãe cada um tem um jeito de contar e é tão bonito, porque aí é outra coisa que eu falo sobre o ambiente que ter um ambiente tranquilo e com amor as coisas acontecem, onde há amor não há muitas dúvidas assim, a gente vai dando o nosso jeito e é maravilhoso e cada um do seu jeito, né Com certeza. Sumaya, queria te agradecer muito de ter voltado aqui, é sempre um prazer que a gente possa conversar, se já é terapêutico pra mim, imagina pra quem tá escutando, é um prazer te ouvir falar, viu? Fico muito feliz, é sempre uma delícia estar com você, você que é uma super condutora, que deixa a gente à vontade, que eu sou super tímida. E antes de me despedir, hoje a gente falou bastante sobre as receptoras, sobre esse universo das tentantes, que é um universo profundo, cheio de dúvidas, de questões. Mas hoje eu queria deixar um carinho especial para as doadoras.
Eu acho que elas são essenciais nesse processo. Elas estão com a gente, mesmo que na maioria das vezes anonimamente, mas elas fazem toda a diferença, eu quero agradecer, vocês fazem parte desse processo, vocês são especiais, é uma questão de amor ser uma doadora, eu torço para que os números melhorem no Brasil e que a gente até pense em doar de uma maneira geral, na doação de órgãos, na doação de uma maneira geral, vocês fazem muita diferença nesse processo e eu estou agradecendo vocês. Que linda, muito obrigada. Com certeza, o tratamento através da doação de óvulos, é por isso que a gente escolheu esse nome de Sonhar Juntos, né? Porque são dois sonhos sendo realizados ali, né?
Ao mesmo momento, muitas famílias crescendo graças a esse tratamento, né? Isso aí. Muito obrigada e a gente se vê no próximo episódio. Obrigada por assistir ao Papo de Tentante. Para enviar seu relato, dúvida ou sugestão, mande um e-mail para papodetentante.com.br Aproveite e acompanhe o CEFERP no Instagram e no YouTube para ficar por dentro das novidades.
O conteúdo deste podcast é meramente informativo e não substitui uma consulta com um médico especialista. Te vejo no próximo episódio. Até lá!
