Vamos conhecer mais sobre o público Trans no mundo da fertilidade?
Este assunto pode gerar muitas dúvidas sobre os procedimentos e a relação da fertilidade com uso de hormônios. Por isso, o Dr. Rodolfo Bertoli, ginecologista, obstetra e sexólogo, vem esclarecer nesse bate papo super educativo.
No novo episódio do Papo de Tentante, com Dra. Camilla Vidal, Dra. Ingrid Guedes e Dr. Rodolfo Bertoli, falamos sobre a inclusão do grupo trans na área da fertilização e o uso correto de hormônios no processo.
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Transcrição do episódio
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Olá, aqui é a doutora Camilla Vidal, médica especialista em reprodução humana do CEFERP centro de fertilidade de Ribeirão Preto. Seja bem-vindo ao podcast papo de tentante, um espaço onde compartilhamos informações sobre o universo das tentantes em busca do tão sonhado positivo. Aqui você poderá compartilhar suas experiências, se inteirar sobre os assuntos de reprodução assistida e ainda conferir relatos de mamães que já passaram pelo tratamento e tiveram o seu positivo. Você também poderá conferir novos episódios quinzenalmente e assistir ao episódio em vídeo pelo YouTube do CEFERP. Vamos ao episódio de hoje?
Oi pessoal, sejam bem vindos ao papo de tentante. Hoje o nosso assunto especial com os nossos convidados especiais é sobre pessoas trans e a relação com a fertilidade. Então, quais são as opções disponíveis de tratamentos para engravidar? Nós vamos entender um pouquinho mais hoje com os nossos convidados, que eu vou, em primeiro lugar, deixar aqui para se apresentarem. Eu sou Ingrid, eu sou médica formada pela federal de Alagoas, sou ginecologista e obstétrica aqui pela USP, especialista em reprodução humana aqui pela USP e hoje em dia eu atuo como médico especialista em reprodução Mano no CEFERP, junto com a doutora Camilla.
Meu nome é Rodolfo bertoli, é, sou médico formado pela universidade do Paraná federal do Paraná, ginecologista obstetra pela Universidade de São Paulo, a USP de Ribeirão Preto e sexólogo pela mesma instituição. Perfeito. Acho que primeiro, pra gente começar aqui a conversa, a gente pode passar o conceito, né? De de pessoa trans, então acho que você puder explicar um pouquinho pra gente. Bom, é quando a gente fala de trans e cis, a gente está falando de identidade de gênero.
Identidade de gênero quer dizer, como a pessoa se vê. É em relação à sua sexualidade. Se se enxerga como homem, como mulher ou como uma pessoa não binária, que não se enquadra em nenhum desses 2 opostos, digamos assim, então, a identidade de gênero, ela não necessariamente ela vai condizer com o gênero biológico, o gênero designado ao nascimento. Por exemplo, uma pessoa que nasce com pênis, ela é designada ao nascimento como homem, uma pessoa que nasce com vagina, ela é designada ao nascimento como mulher. Na grande maioria das pessoas é a identidade.
Ela vai ser condizente com aquele sexo biológico determinado. A grande maioria das pessoas que nasce com pênis se identifica como homem, e a grande maioria das pessoas que nasce com vagina se identifica como mulher. Mas em algumas pessoas não há essa concordância e há diversos fatores que explicam isso, fatores hormonais no desenvolvimento intrauterino, fatores biológicos, fatores genéticos, enfim, é. Mas quando não há essa concordância? Então, entre o gênero designado ao nascimento pela genitália e o gênero que a pessoa se identifica é que a gente fala que a pessoa é trans.
Então ela não é cis, ela não tá do mesmo lado, ela tá do outro lado. Ela se identifica com o gênero oposto ao designado ao nascimento. Então, um homem trans é uma pessoa que nasceu com genitalhas femininas, mas que tem um cérebro masculino. Que se identifica com o gênero masculino e que desde pequeno é muitas vezes já enfrenta conflitos em relação a isso. Desde criança já pode começar a ter manifestações do gênero.
É diferente do gênero designado ao ao nascimento. É muito comum a gente ouvir histórias de pessoas trans aí adultas, que já passaram por esse processo de. Descoberta e aceitação falarem nossa, mas eu lembro de quando eu era pequeno, eu já achava estranho. E quando eu entrei na puberdade, eu comecei a me sentir muito mal, meu peito começou a crescer. Isso foi piorando muito.
A minha sensação com meu próprio corpo foi, é piorando a aceitação do meu próprio corpo. Então, em termos gerais, um homem trans é um homem que nasceu com um cérebro de homem, mas num corpo tipicamente feminino, com vagina, com o útero e ovário. Enquanto que uma mulher trans é uma pessoa que nasceu com o cérebro feminino, só que num corpo masculino, então é uma mulher que nasceu com pênis, testículo, e geralmente é na fase de puberdade que essas é essa disforia, vamos dizer assim, essa não aceitação, essa incongruência com o gênero designado ao nascimento. Que vai se acentuar e vai gerar mais conflito. E geralmente é a partir dessa idade que a gente começa a ter algumas intervenções e começa a entender melhor é e acompanhar melhor essas pessoas.
Rodolfo e já que a gente está falando algo mais conceitual aqui, queria perguntar sobre a parte de hormônio, porque as pessoas associam muito que a pessoa trans ela precisaria usar hormônio, ela precisaria se submeter a cirurgias, né? É, as pessoas. Elas têm muito um estigma de o quanto aquela pessoa é trans, né? Tudo. A gente é muito médico, né, na sociedade.
Então, o quanto que aquela pessoa se identifica mesmo se ela não fez um hormônio, se ela não fez, se ela não fez uma cirurgia, tudo. Todo paciente trans teria que usar hormônio. É então isso que você falou? É, acho que é uma das máximas do ser humano, né? A gente tem que categorizar para se sentir confortável.
Ter algo que a gente não consegue rotular exatamente gera desconforto assim, então, Ah, tá, então se é homem ou é mulher, Ah, sou homem, Ah, então se é homem, se é assim, tipo, a gente quer colocar numa caixinha, num num quadradinho. Mas em questão de sexualidade, identidade de gênero é orientação sexual, enfim, nos diversos aspectos da sexualidade humana, não é tão Preto no Branco assim. Uma pessoa trans, ela pode sim usar hormônio e isso é parte da decisão dela. É, então o primeiro passo é a gente entender se a pessoa trans quer ou não usa hormônio, se ela quer ou não mudar alguma característica do seu corpo, alguma característica fenotípica. Uma pessoa trans, um homem trans que nasceu com o corpo feminino.
Ele pode se entender com homem trans, mas ele pode não querer ter mudança corporal nenhuma. E mesmo assim, ele vai ser um homem trans, porque é como ele se enxerga, como ele se comporta. Tá? É. Então é o uso ou não de hormônio, é uma decisão individual e não é ele quem vai determinar se aquela pessoa é uma pessoa trans de verdade ou não.
Tá, então, primeira questão é o desejo de uso. Segunda questão, possibilidade de uso. A gente tem alguns grupos que não podem usar hormônio, é a terapia hormonal, então o uso de testosterona ou de estradiol. No Brasil, é liberado só para pessoas a partir de 16 anos. Então, por mais que um adolescente se identifique como uma pessoa trans antes dos 16 anos, a gente pode fazer um bloqueio do eixo, pode evitar que as características ali da puberdade se manifestem.
Mas a gente não pode começar a transição de gênero antes dos 16 anos. Outra questão, pacientes com múltiplas doenças, múltiplas comorbidades, paciente é hipertenso, é diabético, já teve AVC, já teve infarto. Em que o risco do uso de hormônio é muito grande. Muitas vezes é a terapia hormonal. Ela é contraindicada, putz, a pessoa quer alteração fenotípica, mas tem contraindicação ao uso de hormônio.
Aí a gente parte para tratamentos estéticos, cirurgia plástica, enfim, a gente lança mão de outros, é. De outros aspectos aí da medicina, de outras ferramentas pra melhorar a qualidade de vida dessa pessoa. Mas não é obrigatório e é importante que a gente saiba isso. Não é Oo uso de hormônio ou o fenótipo, a característica física. Quem vai dizer se aquela pessoa é uma pessoa trans de verdade ou não?
O que é que acontece é que é uma questão que a gente. Isso aí é opinião minha e talvez até seja uma opinião um pouco enviesada, mas é. Na nossa formação, tanto minha quanto a sua, a gente participa nos ambulatórios de pessoas trans lá do hospital das clínicas, e a gente percebe que é as mulheres trans. Elas buscam aquele ideal de beleza da mulher perfeita, cis, curvilínea, com peitos grandes, com traços bem femininos, enquanto que os homens trans, eles buscam traços de muita masculinidade. Então é uma decepção pro cara trans que tá usando testosterona aí há 2 anos e ainda não tem barba.
Ele fala, pô. Doutor, eu estou aqui já usando testosterona há 2 anos e não nasce minha barba, não sei o que ó, cara. Eu também não tenho muita barba e eu estou sendo exposto a testosterona aí há mais de 20 anos. Então é isso. Às vezes, o nosso potencial genético também não permite.
Então é ainda há esse estereótipo da gente achar que a mulher trans quer atingir aquele ideal de beleza feminino e que o homem trans tem que atingir aquele é ideal, é de masculinidade, sabe? Com fortão, musculoso, barbudo, peludo. Mas não é mandatório, é o fundamental, quando a gente fala de pessoas trans, é entender como essa pessoa se enxerga em relação ao seu gênero. É, e você falou um pouquinho, né? Do uso dos hormônios, explicou pra gente, achei muito interessante, muito bom a gente pontuar tudo isso.
E eu vou pedir pra você explicar um pouquinho pra gente sobre quais hormônios são possíveis de de usar. Como funciona, né? De certa forma, essa questão do uso dos hormônios em pacientes trans. Então é. São 2 os hormônios principais que a gente usa, né?
Tanto homens quanto mulheres é, tem. É uma gama de hormônios que são circulantes em ambos os sexos, só que em níveis diferentes. Nos homens cis, o hormônio que predomina é a testosterona. Nos homens cis, tem aí um nível de testosterona perto de 400 a 600 é. Nas mulheres cis, o hormônio que predomina é o estradiol, mas a mulher também tem testosterona e tem os outros hormônios.
É quando a gente pensa em terapia hormonal para pacientes, pessoas trans, a gente pensa é no hormônio que vai ocasionar alteração de fenótipo, alteração corporal. Então, quem manda na construção de um corpo tipicamente masculino é a testosterona. E aí a gente tem diversas formulações. O que é recomendado atualmente? É manipulações, é formulações que sejam injetáveis, tem o menor.
É efeito é sobre o fígado, menor risco de trombose, menor, efeitos menor, menores efeitos colaterais. Tá então a testosterona pro tratamento de homens trans não é via oral, ela é injetável, tem diversas formulações. A gente pode usar cipionato de testosterona, geralmente a aplicação aí a cada 34 semanas, uma ampola, a gente pode usar o um decanoato de testosterona, que é uma aplicação a cada 3 meses. Isso muda muito conforme o médico que está te acompanhando, a experiência dele com o uso dessas medicações e também a disponibilidade é no mercado. A testosterona, ela tem um padrão muito flutuante nas farmácias, tem momentos em que ela está disponível, uma formulação está disponível.
Meses depois aquela formulação já sumiu do mercado e apareceu outra por conta do do uso para outras finalidades, principalmente como é medicação anabolizante para construção de de massa muscular pela população em geral. É, mas basicamente é testosterona injetável com acompanhamento médico. Isso que é muito importante a gente ressaltar a testosterona. Ela traz diversas alterações pro corpo, traz as alterações, é desejadas, então aumenta a purificação, aumenta a barba, engrossa voz. Isso é importante a gente conversar com nossos pacientes que algumas alterações fenotípicas, elas são irreversíveis.
Então, engrossar a voz, aparecer o pomo de Adão. É, são alterações que não revertem depois quando você parar o uso da testosterona. Então, além dessas, é alterações desejadas com voz, purificação, massa muscular. É, surgem outras alterações que podem é ser maléficas, aumento da concentração das células do sangue, que pode potencialmente levar a evento de trombose, AVC, infarto, que é uma alteração grave que deve ser sempre monitorizada durante a terapia hormonal. É e também os efeitos ovarianos, que é o foco, eu acho, da nossa, da nossa conversa.
Aqui, a testosterona, ela tende a silenciar o ovário. Ela coloca como se fosse o ovário num estado de stand by, dá uma pausada no ovário e ele fica ali quietinho. Tanto que é comum que os homens trans em uso de testosterona aí por mais de 3 a 6 meses. Entrem no estágio de amenorreia, param de menstruar, a testosterona. Ela é capaz de fazer o endométrio a camadinha interna do útero, afinar e dar uma pausa na ovulação.
Mas, apesar de fazer essa pausa na ovulação e afinar, o endométrio ainda não é reconhecido como método anticoncepcional. Então, se é um homem trans que tem relação com homem cis, então com homem que tem pênis? Ou com uma mulher trans, uma mulher que tem pênis, então tem relação com qualquer pessoa que tenha pênis. Tem que usar algum método anticoncepcional é associado? O grande barato do da terapia hormonal em homens trans é que você cessando o uso da testosterona em poucos meses.
O ovário, ele acorda e ele recupera a sua função. Então, normalmente a função ovariana, ela é retomada após o intervalo após a parada do uso da da medicação. A gente tem que pensar em alguns casos específicos, por exemplo, putz, o cara, o homem trans, ele tá. Usando terapia hormonal ele está pensando em começar a terapia hormonal e ele não está em um relacionamento fixo. Agora é, ele não sabe se vai querer engravidar ou não.
Talvez vai adiar esses planos da maternidade a longo prazo. Aí vale a pena conversar as questões de preservação de fertilidade, porque às vezes ele vai se ligar lá com 3540, 45 anos pus. Não, talvez eu queira usar os meus ovos, ou talvez eu mesmo queira gestar, e aí talvez já seja à tarde. Talvez a reserva ovariana já tenha sido reduzida. Isso eu estou falando, nem.
Sem mas. Está ótimo. Mas a grande questão é isso, é a gente saber que o uso da testosterona tem esse efeito sobre o ovário, mas é um efeito reversível, digamos assim. Já para as mulheres trans, a situação é um pouco diferente. A gente usa nas mulheres trans é estradiol.
Então primeiro a gente tem que avaliar se tem ou não contraindicação para o uso de estradiol. Pacientes hipertensas, é descompensadas que já tiveram histórico de trombose, que já tiveram, é histórico, é de alguma de algum câncer que seja, é alimentado ou que seja dependente de hormônio. A gente sempre tem que avaliar se há segurança para começar. Não havendo contraindicação. Então, essa mulher trans é uma mulher que nasceu com pênis e testículos, tinha produção de é espermatozoides até então, e ela quer começar a hormonização.
É fundamental a gente conversar sobre preservação de fertilidade com essa paciente, o estradiol. Ele exerce um efeito muito grande de demissão sobre o testículo, tanto na produção de testosterona quanto na produção de espermatozoide. Tanto que uma mulher trans geralmente só. Com o uso de estradiol a gente consegue reduzir Oo nível de testosterona circulante. A gente não precisa usar outras medicações para reduzir a testosterona.
O estradiol por si só, ele acaba reduzindo o nível de testosterona circulante e do mesmo jeito acaba reduzindo a produção de espermatozoides até o momento que cessa que zera a produção de espermatozoide. E diferente dos homens trans que recuperam depois AAA produção ou a ovulação, quando interrompe usa a testosterona. As mulheres trans é depois que elas suspendem o uso do stradjol, normalmente elas não recuperam a produção de espermatozoide, então aí é sem dúvida recomendar a preservação de fertilidade para as mulheres trans. Que queiram ter filhos com seu material genético é fundamental e algo que deve ser discutido já nas primeiras consultas, quando a paciente te procura já buscando o início da terapia hormonal, é algo que já deve ser conversado, deve ser orientado. Se ela putz, não, eu tenho desejo ou tô na dúvida, não sei se eu quero ou não preservar a gente, já direcionar essa paciente pra um atendimento de uma clínica de reprodução, pra que ela seja esclarecida.
Sobre o procedimento, sobre é o custo envolvido. Sobre a quanto que a gente teria que é coletar de material, qual que é um nível, uma quantidade segura. Aí que vai garantir é sucesso depois em procedimentos de de fertilização. É, e você levantou pontos assim que eu considero fundamentais de do porquê que esses pacientes tem que acompanhar com médicos que tenham AAA formação, a especialização adequada, né? Porque a gente precisa não só dessa parte da segurança do uso.
Das medicações, você falou bastante sobre a questão de possíveis contra indicações, efeitos colaterais que a gente tem que pesar, mas esse aconselhamento do planejamento reprodutivo, que é pra todos, né, é e qualquer situação que a gente sabe que possa impactar no potencial reprodutivo, né? Dos ovários, do testículo, é fundamental que a gente tenha, porque a gente não consegue prever, né? Qual é o paciente que vai ter um impacto maior ou menor? A gente tem ali o que você falou, tem AA base, né, na literatura, de que pros ovários esse impacto pode ser um pouco menor. De forma mais reversível para os testículos, um pouco maior.
Mas a gente não consegue prever essa resposta individual. E se a gente hoje tem ferramentas para se se prevenir, né? E muitas vezes é o que você comentou com relação à idade. Às vezes a pessoa vai definir por 11 terapia hormonal, né? É no momento muito cedo, onde ela nem vai parar para.
Cansar? Se ela vai querer ter filho com material genético próprio ou não, né? Então porque não dá essa oportunidade também de preservação? E aí pra isso a gente tem algumas possibilidades, né, Ingrid? O processo para fazer o congelamento de óvulos, né?
Congelamento de gametas de um homem trans, ele varia aí em um tempo de estimulação de 9 a 3 dias, com medicações que a gente faz injetável e oral. Para a gente estimular esses folículos a crescerem e ali por volta do 15º dia, a gente faz a coleta para retirar esses óculos e eles mantêm congelado. E eles podem ficar assim por tempo indeterminado, não é geladeira, não é freezer, tem um prazo ali, então pode ficar por tempo indeterminado e seria assim uma vantagem muito grande. Você pensar, congelou algo cedo antes de começar a terapia tá com os óculos lá bonitinho, congelado e o momento futuro a. Eu quero, quero ter uma família, quero construir uma família.
E aí a gente pode pegar esse material que tá congelado e não necessariamente aquele homem trans, ele vai precisar gestar, tá? Não necessariamente aquele óvulo vai ser da gestação dele, se ele não tiver vontade de gestar, né? A parceria pode gestar? Então a gente tem esse benefício de trazer essa possibilidade da construção da família, né? E no caso?
Das mulheres trans é muito mais simples o congelamento seminal. Então, já que a pessoa já vai começar e a gente sabe que o impacto do estadial é tão grande na produção dos gametas, né? Então que congelar fosse o caminho, assim, mais natural para qualquer médico que iria prescrever uma terapia hormonal. E o congelamento é basicamente a coleta do do semi. Ela vai para uma análise do laboratório para ver se aquela coleta foi suficiente e sendo assim, eles já congelam aquele material.
Então não precisa de estímulo, não precisa de mais nada além disso, é bem, muito mais simples. É, você vê que é um. É um processo bem mais tranquilo, né? Para a gente congelar espermatozoides. E o que eu vejo como muito importante também dessa questão de deles receberem essa orientação, né?
Preferencialmente antes, né, lá, lá no início. É que é o que você falou. Assim, às vezes a gente precisa de muito tempo de uso dos hormônios para que o paciente consiga perceber, né? Algumas mudanças de fenótipo que ele espera. Então a gente vai precisar de um período muito prolongado e, às vezes, naquele momento que o paciente está começando a ficar feliz com aquelas mudanças todas.
Se a gente, por exemplo, for falar no caso de um homem trans, para suspender, para programar depois a estimulação dos ovários ali por 1012 dias, às vezes o próprio paciente não vai querer. Eu tive um paciente que. Queria, a princípio, avaliar. Ele já tinha começado a terapia hormonal, era um homem trans, e ele queria avaliar a reserva ovariana. A gente avaliou, mas é o que você falou, o ovário, ele fica ali meio que adormecido nesse período, né?
Então a gente teve uma certa limitação de interpretação. Falei, olha, se a gente fosse pensar numa avaliação mais fidedigna para estimular, talvez seria interessante discutir com quem a gente acompanha a suspender. E aí ele falou, ai, mas será? Eu demorei tanto para chegar até aqui. E tem outra questão que ele falou, não queria voltar a menstruar, porque para mim, a menstruação é é muito ruim, me traz 11, sensação muito ruim.
Então, às vezes a gente tem que parar lá na frente para isso, né? É, é muito mais desgastante também para o paciente, se ele puder já ter recebido essa orientação de antes, né? Exatamente isso. É muito importante falar. A gente via isso no ambulatório.
É de incongruência de gênero, que era de pacientes trans lá no HC. Muitas vezes a gente recomendava a interrupção por efeitos adversos ou por níveis. Muito é níveis hormonais muito elevados. E a gente percebia que era um momento de muito estresse, muito sofrimento pra esses pacientes. Então é se você conseguir planejar antes desse tratamento, seria o cenário perfeito assim, sabe?
Então, por isso que é fundamental que a gente tenha profissionais capacitados, é e conscientes dessas necessidades. E também que os pacientes busquem esses profissionais, né? Porque é muito comum. A gente recebe muitas. É mulheres trans e até homens trans que começaram a usar a medicação orientado por uma outra amiga trans que já usava, ou por um amigo de academia e tal.
E aí você vê assim, tá usando mulher trans, usando aquele anticoncepcional injetável mensal, 2 vezes por 2 vezes por mês. É uma dose baixíssima de hormônio. A gente usa aí de 2 a 6 miligramas de estradiol por dia. Não chegava nem perto dessa dose, sabe? Então às vezes acaba tendo essa influência hormonal, pode ter já impacto negativo nos fatores reprodutivos, não alcança o fenótipo, as características adequadas, então o paciente ter acesso a um profissional capacitado é fundamental e o profissional saber orientar, saber das possibilidades e das necessidades é individuais, particulares desses grupos.
É muito importante no Brasil, tá? O número de profissionais capacitados para atendimento da população trans está aumentando? É de forma significativa, mas ainda há, em várias regiões, 11 acesso muito difícil a profissionais que saibam manejar terapia hormonal, que saibam avaliar os efeitos adversos, que saibam orientar essa parte de preservação de fertilidade. Mas, na medida do possível, é importante que essas pessoas que vão iniciar qualquer tratamento. É, tentem se informar com um profissional Sério e que não vai fazer um tratamento à revelia e sem levar em consideração todas essas particularidades.
Rodofia a gente pensando num paciente homem trans que tem um desejo gestacional que é gestar. E. Tá em uso de testosterona, o que que a gente poderia recomendar? Então é geralmente a gente recomenda. Então a interrupção da testosterona antes é de tentar engravidar.
Primeiro, para possibilitar que o corpo se prepare, então que o endométrio ele deixa de ser, é influenciado pela testosterona. O endométrio, quando tá sendo usado o testosterona, ele fica muito fininho. Isso muitas vezes não possibilita a implantação. Desenvolvimento da gestação, é, e também é em relação ao desenvolvimento fetal, a gente ainda não tem, é estudos suficientes. É que indiquem aí todos os efeitos adversos do uso da testosterona na gestação.
Mas a gente tem vários relatos de casos de é mulheres cis que eram fisiculturistas, usavam é suplementavam, aí testosterona e engravidaram não sabiam porque já estavam sem menstruar tal e tiveram efeitos negativos no desenvolvimento fetal. Então a recomendação atual é a depender do tipo de testosterona que você está usando. Às vezes Oo decanato de testosterona, ele tem 16 vida mais longa, ele fica ali 3 meses com níveis altos de testosterona no teu, no teu corpo circulando ou sei lá, se for o cipionato, ele mantém níveis por menos tempo, 21 a 30 dias circulantes. Então, a depender do tipo de terapia hormonal que você tá usando, o tempo de meia vida dessa droga, o tanto de tempo que esse hormônio vai ficar circulando em níveis altos no teu corpo, a gente faz esse desmame, então a gente para com a terapia hormonal. E aí pode ter todos os efeitos adversos que a Camila falou.
A pessoa pode voltar, o homem trans pode voltar a menstruar, e isso pode ser um fator de grande sofrimento de disforir em relação ao próprio corpo. Pode trazer uma labilidade emocional intensa, porque aí os níveis de testosterona caem e o estrogênio sobe muito, estradiol sobe muito e isso traz muitas alterações hormonais. Pode voltar a ter mastalgia. Enfim, ter diferentes é queixas associadas a essa interrupção. Mas se for o desejo desse paciente, desse homem trans gestar, a gente tem que orientar, que é o processo de fertilização.
É. Ele só pode ser realizado depois que os níveis de testosterona estiverem em níveis tipicamente femininos, que é abaixo de 80. Pelo menos é. E que durante todo o período da gestação esse uso não pode ser retomado. Então paciente tem que estar bem consciente.
Aí que vai passar pelo menos um período de 1 ano, um ano e meio sem usar a testosterona, no mínimo, no mínimo. Excelente. E eu acho muito importante a gente trazer todos esses pontos, né? Porque é, a gente precisa valorizar a construção de todos os tipos de famílias, né? Então, quando a gente fala Na Na questão do do planejamento familiar, quando a gente fala Na Na questão do planejamento reprodutivo, a gente tem que sempre lembrar desses pacientes também, porque eles também vão ter o seu desejo de constituir a família como qualquer outra pessoa, como qualquer outro paciente, né?
Então que a gente possa levantar mais essa Bandeira, falar mais sobre esse assunto. A gente fala muito sobre AA questão da preservação da fertilidade, no caso de mulheres que vão pensar em adiar maternidade, por exemplo. Então a gente já defende muito essa Bandeira do planejamento reprodutivo e ela cabe muito nesse nesse tema que a gente tá falando também, né? Então, muito obrigada pelas suas contribuições. Obrigado, é, eu acho que é fundamental a gente é ter em mente isso que a população trans.
Apesar é de toda evolução social que a gente tenha, de todo conhecimento disponível, população trans ainda é muito marginalizada, é de diversas maneiras, não só de questão financeira, mas é colocada de lado. É colocado como alguém que não pode ter direitos humanos fundamentais. E a preservação de fertilidade dos nossos pacientes trans, homens e mulheres trans é fundamental é para promover essa inclusão social. E permite essa igualdade é entre todos. E possibilitar que todos constituam a sua família e que se sintam incluídos de forma é direta na sociedade e que possam sim, vivenciar é todas as fases da vida.
É comum, independente se é SIS ou trans, você imaginar a sua vida é como um ciclo e viver esses diferentes ciclos. Então, viver a sua infância, viver a adolescência, viver o início da vida adulta. Se relacionar com alguém ou não é, casar ou não, ter filhos ou não são todas as possibilidades. Mas para muitas pessoas trans, esses sonhos eles existem e eles são suprimidos por falta de oportunidades. Então a gente proporcionar que essas pessoas vivem, vivam seus sonhos, vivenciem é essas expectativas.
É uma questão de inclusão social e a preservação de fertilidade. Ela tá aí para isso, para ajudar esses pacientes. A fazerem parte efetivamente da sociedade e conseguirem construir as suas famílias. Muito obrigada, gente. Adorei nossa conversa.
Espero que você volte em novos episódios, com certeza. Obrigada por assistir ao papo de tentante. Para enviar seu relato, dúvida ou sugestão, mande um e-mail para [email protected]. Aproveite e acompanhe o CEFERPno Instagram e no YouTube para ficar por dentro das novidades. O conteúdo deste podcast é meramente informativo e não substitui uma consulta com um médico especialista.
Te vejo no próximo episódio até lá.
