É possível engravidar com apenas uma trompa?

É possível engravidar com apenas uma trompa?

É possível engravidar com apenas uma trompa?

Saber se podem ou não engravidar com uma trompa não costuma estar entre as maiores preocupações das mulheres, quando se fala em ter filhos. A grande maioria das futuras mamães que estão tentando engravidar se preocupam, sim, com aspectos relacionados à ovulação — atraso menstrual, testes de fertilidade, período fértil…. E o tempo vai passando, o bebê não chega após seis a 12 meses de tentativas e surge a dúvida: o que pode estar acontecendo?

No entanto, além dos problemas na ovulação (responsável por aproximadamente 30 a 40% das causas de infertilidade), as alterações nas trompas representam a segunda causa mais frequente de dificuldades para engravidar entre as mulheres (30 a 40% dos problemas).

Do ponto de vista prático, o exame mais realizado para avaliar a permeabilidade tubária (histerossalpingografia) apresenta limitações e este exame pode apresentar resultados equivocados, principalmente se demonstrar obstrução nas trompas. Não é incomum ouvirmos sobre mulheres que tinham obstrução tubária pela histerossalpingografia e engravidaram espontaneamente após este diagnóstico.

Como a trompa é um órgão fundamental para a reprodução natural, é fácil imaginar que a obstrução tubária bilateral indica a necessidade da fertilização in vitro (FIV) para engravidar. Entretanto, se você teve o diagnóstico de obstrução tubária unilateral, tente manter a calma! Ainda é possível alcançar o sonho de ter um bebê com outros tratamentos ou apenas com um bom planejamento.

Quer saber um pouco mais sobre esse tema? Acompanhe este conteúdo e veja que o sonho de engravidar com apenas uma trompa pode estar mais perto do que você imagina! Boa leitura!

Qual a importância das trompas para que ocorra a fecundação?

A trompa é um órgão fundamental para reprodução, pois é nesta estrutura que ocorre a fecundação de o óvulo pelo espermatozoide. As trompas são estruturas que medem cerca de 10 cm e comunicam a cavidade uterina aos ovários.

Por apresentarem característica tubular, as trompas têm a capacidade de receber os óvulos e espermatozoides que vão originar o embrião. Neste processo, a trompa apresenta peristaltismo (movimentos de contração e relaxamento) que facilitam o transporte do embrião até a cavidade uterina para posterior nidação (implantação do embrião no útero).

As principais causas de obstrução tubária são a infecção por clamídia, alterações da anatomia e função tubárias devido a endometriose, cirurgias para tratamento da gestação ectópica, aderências pélvicas, entre outras.

A obstrução de uma das trompas pode dificultar a gravidez?

Apesar do óvulo poder alcançar a trompa oposta, se a ovulação ocorrer do lado em que a tuba uterina está obstruída, a probabilidade da gravidez pode diminuir naquele ciclo. Na maioria das vezes, as mulheres variam o lado da ovulação de forma aleatória, mas algumas mulheres apresentam ovulações mensais predominantemente em um dos ovários e a chance de gravidez pode diminuir se o ovário mais funcionante se localiza do mesmo lado da obstrução tubária.

Entretanto, na prática isto pode não ser verdade, conforme um estudo da renomada revista BJOG, do Royal College of Obstetricians and Gynaecologists, uma das sociedades científicas mais importantes do mundo.

Neste estudo, os pesquisadores canadenses observaram as taxas de gravidez em mais de 5.000 ciclos de inseminação intrauterina (IUI) e verificaram que, quando a histerossalpingografia evidenciou obstrução da trompa perto da sua entrada no útero (obstrução proximal), as chances de engravidar com a IUI foram semelhantes às taxas de casais com permeabilidade tubária bilateral (esterilidade sem causa aparente).

Por outro lado, quando a obstrução tubária foi distal (próxima ao ovário), as chances de gravidez foram menores em relação às mulheres com permeabilidade bilateral das trompas. Os autores concluíram dois pontos importantes:

  1. a histerossalpingografia apresenta falhas no diagnóstico da obstrução tubária proximal e algumas mulheres diagnosticadas com obstrução das trompas têm estes órgãos normais (resultados falso-positivos);
  2. a oclusão unilateral das trompas, na verdade, pode não diminuir a possibilidade de engravidar, e é fundamental conversar com um especialista para individualizar estratégias e planejamento.

Nesse caso, quais exames são mais indicados para avaliar a situação?

Inicialmente, é fundamental avaliar o contexto reprodutivo do casal. Algumas vezes, o espermograma pode estar muito alterado e a avaliação da trompa poderá ser dispensada porque o tratamento da infertilidade não necessitará da trompa. Outras vezes, a ultrassonografia poderá demonstrar alterações (hidrossalpinge, presença de inflamação e acúmulo de líquido na trompa) e os órgãos deverão ser retirados para aumentar as chances de gravidez.

Existem três principais exames para avaliar a permeabilidade tubária. Com exceção da laparoscopia, os outros exames podem causar desconforto se não forem realizados por especialistas e sob sedação. Listamos, aqui, os exames mais comumente indicados. Confira!

Histerossalpingografia

A histerossalpingografia é o exame mais requisitado para avaliar possíveis casos de anomalias nas trompas de Falópio. Uma recomendação importante é que esse exame seja realizado entre oito e 12 dias após o início da menstruação.

O exame é realizado por meio da injeção seriada de contraste a base de iodo e através do colo do útero. A cada 5 ou 10 minutos, algumas radiografias são periodicamente obtidas e pode-se analisar se houve passagem do contraste pelas trompas.

Por meio dessa avaliação, o médico consegue verificar se as trompas estão íntegras e em condições de desempenhar sua função (receber o óvulo e espermatozoide para fecundação e auxiliar no transporte do embrião para implantação na cavidade uterina).

Em alguns casos, a injeção de contraste na histerossalpingografia pode restabelecer a patência tubária e algumas mulheres podem restaurar seu potencial reprodutivo e engravidar espontaneamente após o procedimento. Entretanto, vale lembrar que, uma vez que a trompa está obstruída, sua função pode estar prejudicada e, mesmo após restauração da sua patência, poderá ocorrer risco aumentado de gestação ectópica tubária.

Histerossonografia

A execução da histerossonossalpingografia é semelhante à histerossalpingografia. Entretanto, na histerossonossalpingografia, utiliza-se o contraste não iodado e visualiza-se sua passagem pelas trompas por meio da ultrassonografia (US).

Como o líquido é facilmente visualizado pela US, pode-se utilizar como contraste o soro fisiológico associado a anestésicos tópicos, diminuindo o desconforto durante o exame. Além da permeabilidade tubária, a histerossonossalpingografia permite avaliar de forma mais segura e eficiente possíveis alterações da cavidade uterina.

A maior limitação para solicitar este exame de rotina na prática clínica é que poucos centros de diagnóstico reprodutivo tem habilidade para realizá-lo, pois é necessário um profissional especializado na técnica e que conheça aspectos relacionados à fertilidade.

Laparoscopia

A videolaparoscopia é o exame mais confiável para avaliar a permeabilidade tubária. Entretanto, por necessitar de internação e anestesia geral não é solicitado de rotina, mas representa uma opção para os casos de alterações sugestivas de endometriose ou massas visualizadas no ovário ou seus anexos.

Por meio de uma pequena incisão logo abaixo do umbigo, insere-se uma óptica para visualização da cavidade abdominal e pélvica. Por esta óptica visualiza-se as trompas, útero e ovários, e um médico assistente injeta um líquido azul pelo colo do útero. Este contraste alcança as trompas uterinas e é possível verificar se este líquido extravasa pelas fímbrias, porção tubária mais próxima dos ovários (distal).

Como e quando tratar a infertilidade no caso de obstrução de uma das trompas?

Segundo a American Society for Reproductive Medicine (ASRM) e a European Society of Human Reproduction and Embryology (ESRHE), o tempo de espera para engravidar pode variar de acordo com as peculiaridades do caso. No entanto, isso depende de alguns fatores que diminuem a fertilidade do casal. Veja os mais comuns!

Mulheres com menos de 35 anos e ausência de doença ginecológica

Em geral, pacientes com idade até 35 anos e que não tenham diagnóstico de doença ginecológica têm maiores chances de engravidarem nos primeiros meses de tentativa. Porém, especialistas afirmam que se o casal não engravidar em até doze meses, o ideal é buscar ajuda imediatamente.

Mulheres com idade acima de 36 anos e com complicações ginecológicas

As dificuldades para engravidar são diretamente proporcionais ao avanço da idade e à existência de doenças ginecológicas que dificultam a dinâmica natural da fertilidade.

Além disso, quando o parceiro apresenta alguma anormalidade no espermograma é preciso procurar um profissional em reprodução humana e fazer um acompanhamento durante seis meses.

Entretanto, devido às características típicas da fisiologia feminina é comum a redução do número de óvulos nas mulheres acima de 36 anos. Às vezes, a qualidade desses gametas também podem sofrer interferência de alguns fatores, o que contribuem para impedir a fecundação.

Listamos os problemas que mais comprometem a dinâmica da reprodução e impedem a gravidez. Confira:

  • anovulação;
  • endometriose;
  • fatores hormonais;
  • obstrução tubária unilateral;
  • síndrome dos ovários policísticos.

A certeza do diagnóstico de obstrução das tubas ocorre, geralmente, após seis a doze meses de tentativa de gravidez natural. Esse prazo considera, no mínimo, uma frequência de relações sexuais entre três e quatro vezes por semana.

Vale destacar, ainda, a possibilidade de antecipação diagnóstica de oclusão (unilateral) de tuba uterina em pacientes com remoção cirúrgica de uma das trompas devido à gravidez ectópica.

Portanto, após a avaliação diagnóstica do estado de fertilidade do casal, o tratamento pode ser direcionado para a conduta expectante. Caso a gravidez não ocorra, opta-se pelas alternativas de reprodução assistida: namoro programado, a inseminação intrauterina (IIU) ou a fertilização in vitro (FIV) são as mais indicadas.

Conforme o potencial reprodutivo do casal, a orientação quanto aos riscos — e benefícios — de cada procedimento e a avaliação das chances reais de engravidar com uma trompa são fundamentais. Igualmente importante são os aspectos associados às expectativas, inclusive no que se refere às condições emocionais e ao retorno do investimento financeiro.

Agora que você sabe tudo sobre engravidar com uma trompa, que tal ficar ainda mais atualizado? Então, não perca tempo: assine a nossa newsletter e fique por dentro de mais novidades em reprodução humana!

Referências:

  • Tan J, Tannus S, Taskin O, Kan A, Albert AY, Bedaiwy MA. The effect of unilateral tubal block diagnosed by hysterosalpingogram on clinical pregnancy rate in intrauterine insemination cycles: systematic review and meta-analysis. BJOG. 2019;126(2):227-235.
  • Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine in collaboration with the Society for Reproductive Endocrinology and Infertility. Optimizing natural fertility: a committee opinion.Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine in collaboration with the Society for Reproductive Endocrinology and Infertility. Fertil Steril. 2017;107(1):52-58

Prof. Dr. Anderson Sanches de Melo

Médico especialista em Reprodução Humana pelo Hospital das Clínicas da HC FMRP-USP.Veja mais →

Deixe um comentário

Aplicativo CEFERP

Conheça o manual da fertilidade e saiba mais sobre reprodução humana.

Celular