É possível engravidar com o endométrio fino?

É possível engravidar com o endométrio fino?

É possível engravidar com o endométrio fino?

Para ganhar força e resistência no combate a infertilidade, nada melhor do que conhecer histórias de pessoas/casais que venceram os desafios da jornada para engravidar. A seguir, vamos compartilhar histórias reais de pessoas que enfrentaram o endométrio fino para ter um bebê.

Vovó grávida de gêmeos! Conheça a história da vovó que tinha endométrio fino e solidariamente emprestou a “barriga” para seu filho!

Aos 23 anos, Mario decidiu que era hora de partir para a produção independente! Os bebês foram gerados com óvulos de doadora anônima fertilizados com seus próprios espermatozoides através da fertilização in vitro (FIV). A mãe de Mário, Valdirene, concordou com a hipótese de gerar seus netos. A jornada não foi fácil… Foram 04 transferências embrionárias (dois testes de gravidez negativos, uma gestação anembrionada e a tão sonhada gestação que está dando certo). Atualmente, a vovó Valdirene está gerando seus netos gêmeos (isto mesmo, gêmeos!). Além das tentativas iniciais sem sucesso, a jornada de Mario e Valdirene foi longa na preparação do endométrio: primeiro foi tentado o uso do estrogênio via oral e transdérmico, mas o endométrio não alcançava a espessura desejada; depois usamos o ciclo natural, e nada; como terceira opção, induzimos a ovulação da Valdirene com indutor via oral e finalmente o “forninho” estava preparado…. Agora, Sol e Lucas estão a caminho!

De repente, somos quatro! A mamãe de trigêmeos que decidiu partir para o tratamento solo!

Rose já havia passado por duas FIVs com óvulos de doadora anônima em outro serviço. Quando chegou no CEFERP, a saga começou! Após discutir sobre estratégias para diminuir o tempo de espera para engravidar, o endométrio não queria colaborar. Mesmo depois de realizar as medidas acima, o endométrio atingia espessura máxima de 5,6mm. Por opção, Rose ainda desejava utilizar o estrogênio injetável, mas, pelo custo elevado e a falta de confirmação do benefício pela ciência, Rose decidiu não utilizar este medicamento. Como o endométrio não espessava, ficou combinado de realizar a transferência de dois embriões com o endométrio de 5,6 mm. Conclusão: gestação trigemelar! Nem sempre o endométrio precisa estar acima de 6-7 mm para receber os embriões. A grande lição deste caso é que devemos respeitar o limite biológico de cada mulher. Também vale lembrar que este tipo de gestação é de alto risco e as clínicas de reprodução devem ter menos de 1% das suas gestações com este resultado. No caso da Rose, um dos embriões dividiu e os três embriõezinhos encontraram o seu lugar no útero.

Perseverança, fé, persistência e confiança: ingredientes para vencer o endométrio fino!

Neste caso, os traumas eram grandes! Ana e Pedro poderiam ter cruzado os braços e acreditar que não nasceram para ter um bebê. Este casal estava tentando engravidar há 09 anos, perderam um bebê por problemas cardíacos e a segunda gestação evoluiu para um aborto que necessitou de curetagem uterina. Se não bastasse, ela já havia sido submetida, sem sucesso, a uma inseminação intra-útero, duas FIVs e agora tinha 47 anos. A recepção de embriões gerados com óvulos doados foi o tratamento de escolha nesta situação, mas após a curetagem e depois da necessidade de realizar uma grande incisão no útero para salvar o bebê da gestação de 7 meses, o endométrio não colaborava. Além das medidas utilizadas nos casos anteriores, foi utilizado o filgrastin e o sildenafil, sem sucesso. Nesta batalha, ainda foi realizada a histeroscopia com lise de aderências (sinéquias) com melhora da amplitude da cavidade uterina; empiricamente, realizamos o plasma rico em plaquetas (PRP). Não teve jeito! O endométrio da Ana atingia no máximo 5,0 mm e, sem alternativa, decidimos transferir dois lindos embriõezinhos!  Após 14 dias, a gestação foi confirmada… Para nossa surpresa, mais duas vidinhas chegaram ao mundo! O interessante do caso da Ana e do Pedro é que o diálogo, apoio, troca de informações, persistência, tanto do casal quanto da equipe, foram fatores determinantes para dar apoio nesta jornada tão tempestuosa!

Mas o que é endométrio fino?

Endométrio é o tecido que reveste a parede interna do útero e tem função primordial na implantação e nutrição do embrião nas primeiras semanas de gestação. Se o endométrio não se desenvolve adequadamente e sua espessura não aumenta o suficiente (menor do que 6-7 mm) para receber o embrião, definimos o diagnóstico de endométrio fino. Na fertilização in vitro, este quadro ocorre em 1 a 2,5% dos casos.

Quais as causas do endométrio fino?

As causas de endométrio fino podem ser divididas em três grupos, que você confere a seguir.

Causas inflamatórias

Neste grupo estão as infecções uterinas.

Iatrogênicas

Alterações secundárias radioterapia ou a procedimentos cirúrgicos, tais como curetagem uterina, retirada de nódulos uterinos (miomas) ou pólipos pela histeroscopia. No caso da curetagem existe uma situação conhecida por Síndrome de Asherman, que ocorre pela destruição da camada regenerativa do endométrio (camada basal).

Em consequência dessa destruição pode haver a formação de aderências fibrosas no endométrio, que estão associadas à atrofia endometrial. O uso indiscriminado de alguns medicamentos também pode prejudicar o espessamento endometrial (citrato de clomifeno, por exemplo).

Idiopático

Quando não há uma causa conhecida. Nestes caos, a anatomia e arquitetura do endométrio apresenta sua particularidade sem que demonstre prejuízo real para a obtenção da gravidez.

Quais os sintomas e como é realizado o diagnóstico do endométrio fino?

O endométrio fino pode apresentar sintomas inespecíficos comuns a diversas outras patologias ginecológicas ou mesmo ser completamente assintomático. Quando os sintomas relacionados ao endométrio fino estão presentes, a infertilidade, o risco de aborto e a redução do volume do fluxo menstrual são os sintomas mais frequentes.

O padrão e espessura do endométrio na ultrassonografia transvaginal é a forma mais utilizada no diagnóstico do endométrio fino. A histeroscopia também pode auxiliar nesta avaliação.

Quais os possíveis prejuízos para a mamãe e o bebê?

Mulheres com endométrio fino podem ter maior risco para a implantação anormal da placenta (placenta acreta – os vasos da placenta invadem a camada mais externa do útero, o miométrio), descolamento placentário, necessidade de extração manual da placenta após o parto e pre-eclâmpsia; já para os bebês, pode ocorrer maior risco de nascer prematuro e/ou pequeno para a idade gestacional.

Quais os tratamentos disponíveis?

O sucesso do tratamento para endométrio fino na reprodução assistida apresenta resultados limitados. A seguir, vamos descrever os tratamentos mais utilizados na prática clínica.

O preparo endometrial com uso de estrogênio e progesterona é o esquema mais utilizado para a programação da transferência de embriões congelados. Embora a ciência não demonstre vantagens, o preparo endometrial em ciclo natural pode ser uma alternativa para a resolução do endométrio fino. Na prática, pode-se observar que algumas mulheres podem responder melhor aos hormônios naturais produzidos pelo seu corpo. Outro ponto importante, é que o ciclo natural parece estar associado a menos complicações obstétricas como o acretismo placentário e a pressão alta na gestação e também está associado a menor risco de diabetes na gestação.

A prescrição de sildenafil, estrogênio injetável, doses elevadas de estrogênio oral ou transdérmico podem induzir maior aporte sanguíneo para o útero, o que pode favorecer o aumento da espessura endometrial. Entretanto, a taxa de nascimento de bebês parece não aumentar com o uso destas medicações nos casos de endométrio fino.

O uso do Filgrastin intrauterino (um tipo de granulocyte colony-stimulating fator) pode melhorar a espessura do endométrio, mas a taxa de sucesso da FIV parece não modificar. Por isto, o uso desta medicação ainda necessita ter seu benefício confirmado.

A histeroscopia pode representar estratégia adequada quando há suspeita de aderências na cavidade uterina (sinéquias – Síndrome de Asherman).

Atualmente, o uso de plasma rico em plaquetas autólogo dentro da cavidade do útero (ou seja, obtido do próprio sangue da mulher) parece aumentar o aporte sanguíneo para o endométrio, aumentando a sua espessura. Estudos preliminares realizados na China demonstraram maior taxa de sucesso da FIV, mas esta informação necessita ser confirmada em estudos científicos com maior número de pessoas.

No último congresso europeu de medicina reprodutiva em junho/2019, o uso do indutor de ovulação (letrozol) parece estar associado a melhores taxas de gravidez em relação ao uso de estrogênio/progesterona em mulheres que não apresentam ovulação.

Você sofre com o endométrio fino? Entre em contato por meio do nosso site, agende sua consulta e venha conversar com nossos especialistas sobre possíveis estratégias para você!

Referências:

Chang Y, Li J, Wei LN, Pang J, Chen J, Liang X. Autologous platelet-rich plasma infusion improves clinical pregnancy rate in frozen embryo transfer cycles for women with thin endometrium. Medicine (Baltimore). 2019;98(3):e14062.

Kasius A, Smit JG, Torrance HL, Eijkemans MJ, Mol BW, Opmeer BC, Broekmans FJ. Endometrial thickness and pregnancy rates after IVF: a systematic review and meta-analysis. Hum Reprod Update. 2014;20(4):530-41.

Kim H, Shin JE, Koo HS, Kwon H, Choi DH, Kim JH. Effect of Autologous Platelet-Rich Plasma Treatment on Refractory Thin Endometrium During the Frozen Embryo Transfer Cycle: A Pilot Study. Front Endocrinol (Lausanne). 2019;10:61

Liu KE, Hartman M, Hartman A. Management of thin endometrium in assisted reproduction: a clinical practice guideline from the Canadian Fertility and Andrology Society (CFAS). Reprod Biomed Online. 2019 Mar 20. pii: S1472-6483(19)30340-2.

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Oron G, Hiersch L, Rona S, Prag-Rosenberg R, Sapir O, Tuttnauer-Hamburger M, Shufaro Y, Fisch B, Ben-Haroush A. Endometrial thickness of less than 7.5 mm is associated with obstetric complications in fresh IVF cycles: a retrospective cohort study. Reprod Biomed Online. 2018;37(3):341-348.

Xie Y, Zhang T, Tian Z, Zhang J, Wang W, Zhang H, Zeng Y, Ou J, Yang Y. Efficacy of intrauterine perfusion of granulocyte colony-stimulating factor (G-CSF) for Infertile women with thin endometrium: A systematic review and meta-analysis. Am J Reprod Immunol. 2017;78(2).

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Prof. Dr. Anderson Sanches de Melo

Médico especialista em Reprodução Humana pelo Hospital das Clínicas da HC FMRP-USP. CRM-SP 104.975
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